quinta-feira, agosto 31, 2006

Chega de sofrer

Enfim, sinto estar no caminho do perdão.
É uma sensação de alívio muito grande. É como se retirasse o amargo permanente na língua, me livrasse de uma nuvem espessa sobre minha cabeça, selecionasse as lembranças e dessa seleção sobrassem somente as boas.
Acho que é um processo normal, mas pensei que o ciclo jamais fosse se cumprir. Pensei que ficaria para sempre triste, desiludida, desgostosa da vida e infinitamente magoada com o motivo de tal sentimento.
Mas não. Graças à ação do tempo, ao meu amadurecimento emocional e, claro, às forças lá de cima, superei a fase de esculhambar o ex. O ex é ex, se foi, morreu pra mim, e dessa relação tem que ficar o que tivemos de bom. Até a pouco, remoia a traição, as discussões, as brigas, as indiferenças. Danem-se. Fica agora a música de Maria Rita que ouvíamos na cama depois do sexo. Ficam os tantos cafés da manhã que ganhei na cama. Fica a sensação das mãos dele sobre os meus olhos no dia em que defendi meu TC, uma surpresa que até hoje me soa como improvavel, mas aconteceu. Ele veio. E com flores no banco de trás do carro. Lembrar disso, pasmem, deixa meu coração cheio de amor. Daquele amor. Amor que não morre. Adormece, resume-se à sua impossibilidade de cultivo.
Magoa pensar que ele tenha reposto a fonte de sentimentos tão rápido. Que não tenha dado aviso prévio de suas intenções. Enfim, o que dizer disso. Já chorei por isso. Ainda hoje meus olhos ficam úmidos por isso. Mas agora não mais. Agora choro pensando na melodia da música de Maria Rita. São lágrimas muito mais sinceras, muito mais plenas, muito mais ternas.
Espero encerrar por aqui a série de textos de lamúrias pelo namorado que partiu. Hoje tenho outras angústias. E ele não tem mais nada a ver com elas.
Que permaneça em meu coração como aquele guri de olhos azuis e boca carnuda que me tirou da solidão e me proporcionou momentos de plena felicidade, mesmo que passageira, mesmo que outrora soterrados em amargura.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Encruzilhada


Sabe aqueles momentos da vida da gente em que temos diversos caminhos a seguir, mas nenhuma segurança em mudar o traçado da caminhada? Pois é, tô diante desse dilema. Quer dizer, em breve espero estar. O engraçado é que eu mesma provoquei esses pontos de interrogação na minha cabeça. Ainda não me arrependi, porque chega um período na nossa vã existência que é preciso abalar estruturas, mover montanhas, escalar arranha-céus pra se sentir vivo, útil, necessário. E na fase em que estou, um 11 de setembro na esquina do meu quarteirão mudaria minha vida pra melhor, desde que não estivesse no prédio e não morresse ninguém.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Traição


Incrível como há pessoas que, quando a gente pensa que já fizeram todo tipo de sacanagem com a gente, conseguem se superar e dar o golpe de mestre. Descornada, agora com atestado de mulher traída. Assim me sinto, assim estou e disso estou tentando me livrar e superar. Mais é difícil, é decepcionante de mais, é frustrante de mais. Uma pessoa com quem se divide quase dois anos da vida não poderia permanecer com o poder de nos tornar desgostosos de viver, das pessoas, do amor, como quem espera a ferida mostrar sinais de cicatrização, para puxar aquela casquinha de cima e fazer sangrá-la novamente. É insuportável a sensação de tristeza que me toma ao pensar que dividia o mesmo lençol com outra mulher. Sentava no mesmo banco do carro onde ela sentava, beijava os lábios e tocava o corpo do homem que pensava ser só meu. Por quê??????? Será que fui uma namorada tão ruim, fria, chata, displicente, complacente, cega, burra? Não sei. O fato é que, mais uma vez, parte do meu coração endureceu, morreu, deixou de sentir. É uma dor tão grande que as lágrimas doem nos olhos, negando-se a rolar pela face, por não se acharem dignas de tal sentimento que as provocou.
Daquele ferimento que se fechava agora jorra sangue, incessantemente. Inunda meu corpo, encharca minha alma e me põe a sofrer novamente. Será que é porque o amor ainda permanece. Não, ele já não existia há tempos. É, sim, porque fui traída. Sentia-me amada, amor incondicional, e na verdade me enganava. Estava à espera de uma nova fase, da volta da felicidade. É simples, não tão fácil, mas muito mais correto, digno. Terminar antes de efetivar a traição. Quando se está em uma relação desgastada, olha-se para os lados com uma voracidade diferente, uma intenção mais pungente. E no meio da multidão, um rosto acaba se destacando. E surge a outra metade adormecida. O caçador quer abater nova presa. Esquece que a mulher dorme em casa um sono leve, de quem tem a certeza de que seu homem está seguro à sós entre os lençóis.
Mas eis que o carinho mingua, as demonstrações de amor escasseiam, e as desculpas para não estar junto são mais freqüentes. Dizer que se desconfia de algo é pecado, falácia, absurdo. Hoje vejo que por isso a revolta quando brincava sobre a existência de outra. Deus! Deus!! Deus! Ajudai-me! Não suporto essa sensação! Exijo paz de espírito, minha dignidade de volta, meu amor próprio refeito. E, sobretudo, quero voltar, um dia, a confiar no sentimento dos outros, me entregar, amar sem medo. Mas sei que aquela pontinha de desconfiança vai existir, pra sempre. Como meu desprezo por esse homem que hoje me faz sofrer.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Fantástico mundo a ser descoberto


Ontem dei um grande passo em minha vida. Assinei os papéis e dei entrada na minha grande viagem. Outubro do ano que vem passo um mês no Canadá, em Vancouver. Queria poder arrumar as malas e sair correndo agora. Tão gostosa a expectativa de viver sozinha em um país de língua diferente, costumes diferentes, longe de qualquer pessoa conhecida. E também tão assustadora a idéia de estar distante de tudo e de todos. São desafios que empolgam, tornam a vida mais viva, pulsante. Assim deveria ser nossa vida, aliás. Repleta de novas sensações, diferentes descobertas, prazeres inexplorados. Sinto que será um momento de descobertas. Serei eu capaz de me vivar em território estrangeiro? Dada a minha disposição para o novo, sim! E vou além. Penso em uma reviravolta. Mas, ao mesmo tempo, as mãos da prudência me seguram. Não dependo de ninguém e ninguém depende de mim, mas tenho planos, contas a pagar... e não sou dada a decisões impulsivas. Quero muito mudar. De emprego. Sinto que onde estou não progrido, não ando pra frente, não cresço. Sou, hoje, uma planta em estufa. Se não me derem mais espaço pra crescer, ampliarem o tamanho do meu vaso, aumentarem minha terra e me adubarem, fico assim como estou por anos a fio. No entanto, minhas raízes estão loucas pra se expandirem... ah, que angústia.

Antes de vir trabalhar, hoje, assistia a um programa no People & Arts. Noivas Neuróticas. A poucas semanas do casamento, elas entram em um programa power de exercícios pra perder peso e entrar no vestido. Também mostram as futuras senhoras perdendo a paciência com detalhes da cerimônia, discutindo com os noivos... um estresse. E aí me surgiu o questionamento. Será que alguém já desistiu do casório às vésperas da data? Porque é exatamento nesse momento de nervos à flor da pele que surgem as desavenças, as diferenças e afloram as verdadeiras personalidades. Doida eu, hein? Assistindo a programas de preparação de casamentos justo agora que estou anos luz de um possível enlace. Mas é inevitável. Atire a primeira pedra a mulher que nunca se viu dentro de um vestido branco, cabelo preso com coque, diante daquele corredor (cheio de gente que sa viu duas vezes na vida) que a separa do matrimônio. É algo cultural, análogo à mulher. Mas também é assustador. O medo de errar e ter que esconder as fotos, se desfazer do vestido, dividir os presentes... bah, se em fim de namoro há lembranças a enterrar, o que se dirá de um casamento desfeito!

Mas, enfim, agora, tudo é expectativa.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Prazerer familiares

Começo a semana cheia de gás, descançada, tranqüila e torcendo pra que a sexta-feira chegue logo e que o próximo final de semana demore a passar. Pedi muito, né? Ah, mas quem sabe?
Estou feliz por mim. Feliz porque consegui cumprir o que havia me proposto no início da semana passada. Sem festas fortes, momentos de descanso e dedicados a mim. E não é que consegui? Sexta à noite, filmezinho (aliás, não agüentei olhar até o final, os faróis apagaram antes, e à 1 hora tava estatelada na cama). Sábado, depois de trabalhar, fui à casa dos meus pais zapear pela NET. Encontrei uma comédia romântica bem simpática e acabei assistindo até 23h30. Tinha o aniversário de um grande amigo pra ir, mas o frio, o sono e a festa pouco promissora (a não ser pra abraçar grandes amigos) não conseguiram me gerar grande impolgação. Mas o filmezinho foi de grande valia. Nada como ver filmes com finais felizes. Saí da casa dos meus pais saltitante. Vesti a roupa, passei a maquiagem e o perfume e fui. Como esperava, nada muito promissor pra caça, mas não fui pra isso e sim pra cumprimentar meu amigo que, aliás, vive uma grande fase: apaixonado, namorando, todo faceiro. E cumpri minha missão. E voltei pra casa tranqüila, sem álcool na cabeça (ok, duas longnecks....é, bebi cerveja... mas era Bohemia!) e sem arrependimentos.
O domingo foi de total descanso. Passei o dia deitada na sala de tevê dos meus pais assistindo a seriados da Warner e da Sony. Ah, e comendo. Coisa bem boa!
Se cumpri a parte do auto-conhecimento? Buenas, é sempre um auto-aprendizado conter impulsos de se estragar na noite, beber todas, conhecer trouxas. E ver que existe um prazer igualmente satisfatório em ficar em casa, curtindo uma tevê, com os pés quentes e o corpo coberto, com a mãe na ponta do sofá terminando de tricotar um blusão e o pai e o irmão acompanhando o futebol. Provinciano? Tem coisa melhor que isso? Ok, também acho ótimo um final de semana a dois na Serra. Mas enquanto a companhia especial não vem, nada melhor que a companhia de quem tanto nos conhece: a família.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Sem problemas


Não tenho grandes problemas na vida. Não tenho dívidas, não tenho ninguém pra sustentar, não tenho inimigos (declarados), não dependo da ajuda dos meus pais. Sou a típica mulher emancipada. No entanto, ainda não descobri os prazeres dessa situação. E tenho, sim, problemas existenciais, e aos montes, e crescendo em proporções monstruosas. Sabe por quê? Justamente porque me faltam preocupações substanciais, creio eu. Não que seja dada a questionamentos fúteis, do tipo "que roupa uso hoje?", "com quem vou ficar na festa de logo mais?" Nanananão. Apenas subexisto. Sem afetações. Me pergunto, constantemente, se estou no caminho certo, se tomei as decisões corretas, se poderia ser melhor, estar melhor, se não deveria arriscar, jogar tudo para o alto e aproveitar minha "emancipação".
Hoje à tarde, li um artigo do Nilson Lage na Zero Hora. Falava, a grosso modo, de retratos. Do quanto, na verdade, representam o íntimo do retratista e não o âmago de quem é retratado. Citou Dorian Grey, personagem de Oscar Wilder que tem seu auto-retrato pintado mas, ao contrário da lógica, é a pintura quem envelhece, não ele. Ora bolas, por que misturei alhos com bugalhos? Na verdade, quero fugir da auto-piedade. E buscar inspiração. Pensei em voltar a brincar com tintas, com argila, explorar a veia criativa ativada na adolescência, durante as aulas de artes. Assim, além de uma terapia, ainda decoro a casa.

Ode ao futuro do pretérito


Queria gritar até perder a voz. Dormir até minhas costas implorarem que saia da cama. Tomar banho sentada no chão do box, com a água quente batendo nas costas, até os dedos enrrugarem. Queria locar todos os DVDs que já vi e gostei, e passar dias assistindo-os de novo. Queria fazer negrinho e comer na panela, ainda quente, sem que isso significasse ganhar peso. Queria colocar pra tocar minha música preferida no último volume, e instalar um espelho pra dançar enlouquecidamente diante dele, vestida com minha melhor roupa. Queria transar sem me preocupar com o que vão achar da minha performance ou do meu corpo. E também esquecer que existe a pós-transa e o dia seguinte, e depois e depois. Queria fumar sem ficar com cheiro de cigarro nas mãos e no cabelo. Queria beijar devagar, uma boca macia e com gosto bom, sem que isso leve ao sexo. Queria usar salto alto e não ficar com dor nos pés, nas pernas e nas costas no dia seguinte. Queria trabalhar pensando no quão prazeroso é poder fazer o que se gosta, sem a pressão do deadline, sem lembrar da pouca grana que se ganha no início do mês e sem ser cobrada por erros típicos do estresse a que somos submetidos. Aliás, queria não errar. E ser rápida, precisa, astuta, um prodígio. Queria ser abraçada na cama, antes de sair dela ao acordar. Queria ter minhas costas esfregadas no banho de sábado. E depois ganhar um café da manhã com direito a flores e música lenta de background. Queria não carregar no rosto as marcas da puberdade e, hoje, as cicatrizes do cansaço. Queria ter um nariz mais delicado e as pálpebras dos olhos menos caídas. Queria ter uma boca mais carnuda. Queria ter os dedos mais longos e as unhas mais femininas. Queria ter barriga de tanquinho e um pouco mais de seios. Queria sair pra jantar em boa companhia e depois do jantar ouvir boa música ao vivo. Queria dirigir sem me preocupar com o preço da gasolina. Queria ter meus longos e fortes cabelos de novo. Queria voltar à faculdade. Queria ter mais amigos. Queria arriscar mais. Queria passear mais. Queria ter mais dinheiro. Queria ser feliz com o que tenho. Queria não estar tão amarga. Queria voltar a sorrir como antes. Queria me bastar. Queria me compreender. Queria me magoar menos. Queria me fazer bem.

terça-feira, agosto 15, 2006

Há um mês


Hoje, perto das 21h30, 22 horas, fará um mês da separação. Muito tempo, pouco tempo? Não sei. A sensação que permanece é de que numa noite dessas vou acordar e vê-lo deitado ao meu lado, como se tudo não passasse de uma longa noite de sono mal dormida.
Mesmo que as coisas estivessem de mal a pior, o rompimento era um extremo assustador. Mas ele aconteceu, de forma premeditada pra ele, mas que pra mim ainda é visto com estranhamento, como algo com que tenho que me acostumar, que preciso absorver.
A vida segue, com seus altos e baixos, com a noite como consolo, com o trabalho como principal razão da minha existência.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Quero jogar a toalha

Essa vida de boemia tem me deixado exaurida! Definitivamente, não tenho mais fôlego pra, sexta e sábado, chegar em casa com o sol a pino. Isso sem falar na resistência ao álcool, testada com muito empenho na base de tequilas, margueritas e (a mais nova experiência) doses de diabinhos verdes... isso mesmo, absinto! Temo que daqui a pouco minha parceria não encontre mais nenhuma bebida que a agrade e lhe proporcione momentos de bobeira. E então, ela poderia partir para experiências quase explosivas, do tipo álcool puro... wisky (que odeio, a não ser que esteja extremamente diluído em guaraná).
Por que, afinal, buscamos o estado patético da embriaguez?
Depois de alguns sustos que passei, cheguei a fazer algumas festas com uma garrafinha de água na mão. E foram tão divertidas quanto as com o nível alcoólico alterado.
Minha parceria é uma pessoa tímida travestida de mulher fatal. Eis o motivo para as bebedeiras.
Já eu transito entre o ser seguro de mim, certo das minhas possibilidades e instrospectiva, contemplativa, quando a futilidade e efemeridade da noite passa a me incomodar. Aí, só estando bebaça pra não entrar nesse estágio.
Faz menos de um mês que meus finais de semana passaram a ter outros propósitos e outros destinos. E admito que já cansei. Estou louca pra jogar a toalha. Nem a adrenalina da sexta-feira tem me motivado a ponto de não pensar na grana que se gasta, no papinho que se ouve, no cheiro de cigarro que fica no cabelo. Uma hora isso passa...

quinta-feira, agosto 10, 2006

Quando é que a gente ama?

Foram dois os namorados que tomaram cinco anos de minha vida, no somatório das relações.
Engraçado que, quando paro pra pensar, me questiono se os amei de verdade. Isso porque às vezes levo a crer que a proposta tentadora de namorar sobrepõe a existência de tal sentimento. Aí a gente começa a namorar. E espera, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, dos anos, que o frio na barriga se manifeste quando ele ligar pra dizer que tá com saudade. Mas o frio na barriga não vem e a gente se acostuma com a companhia da criatura, mesmo que esporádica. Faz quase os mesmos programas todos os finais de semana. E esses programas vão perdendo a graça, mas são vitais pra nos sentirmos "em namoro".
Pois é, até hoje não sei responder se amei os ditos. Me encantei, sim, com a possibilidade de estar cm alguém. Com o primeiro, até alianças de compromisso trocamos. Com o segundo, compramos anéis que nos agradassem, em prata. Foram-se os anéis, ficam os dedos... na verdade, ficaram os anéis e os dedos. Só que separados, distantes. Os anéis estão em uma caixa de jóias sobre minha cômoda. O último, muito bonito, em formato de borboleta, queria voltar a usar, mas prefiro dar um tempo ao dedo, deixar sair a marca e desvincular o objeto à pessoa.
Outra coisa que tirei da visão foram os porquinhos que pedurava no vidro traseiro do carro. Eram dois bichinhos abraçados, muito fofos. Mas essa porquinha aqui não tem mais quem abraçar... não em status namorador.
Pensei em, na próxima oportunidade de namoro, parar e analisar o caso antes de me empolgar com o chamamento namoro. Me questionar sobre o potencial amoroso do cara. Aliás, será que o amor vem com o tempo? As duas vezes em que resolvi deixar o tempo fazer o trabalho, continuei com a dúvida.

terça-feira, agosto 08, 2006

Quero ser Mulher Maravilha


Quando pequeninha, tinha uma fantasia de Mulher Maravilha. Era um shortinho azul com estrelas bancas, uma blusa tomara-que-caia vermelha com o símbolo da Mulher Maravilha colado no peito, uma faixa de plástico amarela pra colocar na testa, pedaços de plástico amarelo imitando botas pra colocar sobre os tênis e o principal: a capa azul, com estrelas brancas. Amarrava ela ao pescoço e saracoteava enlouquecida pelo apartamento, me sentindo muito poderosa. Por mim, passava o dia vestida de Mulher Maravilha! Tudo era motivo pra usá-la. Sábados, quando meu pai ia jogar futebol na casa da minha tia-avó, ia correndo pro armário me paramentar. Festinha de escola, o mesmo.
Uns dois anos e pouco atrás rolou um convite pra uma festa à fantasia. Fui direto à loja de aluguel de fantasias. Eis que vejo a dita pendurada em uma arara no canto da loja. Era inverno, mas não poderia deixar de prová-la, sentir de novo aquele gostinho de brincar de super-heroína! E foi muito engraçado. Estava com um amigo que se vestira de macaco. Saímos da cabine e olhamos um pro outro. Risos, muitos risos. Mas em mim bateu uma nostalgia incrível! A fantasia que provara era mais elaborada... parecia mais real. Só faltava poder, de fato, voar. Mas nada que a imaginação não proporcionasse. Ah, como queria ser de novo a Mulher Maravilha! Ter de volta meus superpoderes.... combater o mal, derrotar monstros, chegar em casa, tirar a roupa e tomar um martini ao som de Sade. Bem tranqüila e com a sensação de dever cumprido.
Tá aí, acho q vou comprar uma fanstasia de Mulher Maravilha. Quando a peteca estiver quase caindo, vou lá e visto a roupa superpoderosa, me olho diante do espelho e volto a levantar a peteca. E à noite, faria diligências pra conferir se a ordem estaria sendo mantida... coisas de menina que sonha em ser heroína...

domingo, agosto 06, 2006

Amnésia alcoólica

Passei o final de semana colhendo fragmentos do que foram as noites de sexta e sábado. Sim, bebi de mais. Não, não fiz nada de errado, não caí, não beijei quem não devia, não dei fiasco. Apenas alcancei aquele estágio perigoso, entre perder a noção por completo e ainda estar agarrada a ela, mesmo que só por alguns decisivos momentos. Brincar de alcaçar o limite é perigoso.... falo isso do alto de uma vasta lista de bobagens cometidas sob efeito do álcool.
Engraçado. Paro e tento alcançar no meu inconsciente os hiatos que sobram na consciência. Nada acontece. A conta da festa de sábado, não me lembro de ir ao balcão pagar. Também não vem à mente o momento em que fui embora. Tenho presente na memória olfativa o cheiro das esfirras que minha parceira de gandaia comprou no caminho pra casa.
As marcas das duas noites de festa estão por tudo. Sinto em meus dedos o cheiro do X-Tra. No rosto, as profundas olheiras não me deixam esconder as horas de sono que me faltam. O corpo dói de exaustão. Hoje, no cinema, assistia a Piratas do Caribe e brigava com meus olhos pra que permanecessem abertos.
Você acha que gosto disso? De ter esses espaços pontilhados pra preencher na mente? Nada! Mas a culpa é mim, a irresponsabilidade também. Por que beber tanto? Uma fase, só uma fase... logo passa, me acalmo, me ajeito, me acerto com a vida.
Tive medo dessa retomada. As coisas mudam em dois anos. As pessoas mudam, a rotina da noite também. Mas aquele lugar, o JK, não muda. Impressionante! Tive medo de ir às festas e ficar introspectiva, só observar o esquema da noite. E me irritar e sentir que não faço parte disso. Pois saibam que não quero fazer. É um prazer muito efêmero. Como o barato que proporciona uma droga.
Hoje é domingo. Noite úmida e fria. Faltam ainda cinco dias pra que esse ciclo volte a se repetir. Sábado, no entanto, mudaremos o roteiro.

sexta-feira, agosto 04, 2006

A boa e velha (mas sempre renovada) sexta-feira

Impressionante a sensação que dá estar em plena sexta-feira.
Tão estimulante, revigorante, cheia de expectativas.
Tá certo que há domingos em que a gente chega à conclusão de que de nada adiantou estar com todo o pique pro final de semana. As festas não ajudaram, o tempo tava uma merda, os filmes do cinema um porre, até a tevê a cabo resolveu reprisar aqueles filmes que já vimos unas cinco vezes.
Mas, enfim, meu dia preferido é, sem dúvida, a sexta-feira. A saída da sexta-feira, por exemplo, se estiver ruim, tem sempre a chance de a de sábado ser melhor. Se for daquelas de derrubar, até altas horas da madrugada (ou com prosseguimentos na companhia de novas conquistas), sempre tem o sábado pro descando necessário.
Já o domingo... ah, o domingo é aquele dia xarope, que a gente senta no sofá e espera a segunda-feira chegar.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Erupções

Ontem à noite, depois de um dia de trabalho do cão, desumano, estressante, caótico, tudo de pior que pode haver quando não se consegue atuar com o mínimo de dignidade, cheguei em casa louca pra me proprorcionar um pouco de prazer. Peguei um pão daqueles bisnaguinha, requeijão e patê de fígado (sim, adoro patê de fígado, daqueles bme fortes!). Quando cortava o dito, cortei tb parte do dedo indicador da mão esquerda, com a qual segurava o pão. Sangrou um monte. Mas não senti dor. A dor psicológica tava latejando mais que a física. Estafa mental. Difícil desligar as turbinas depois de uma jornada tão longa e interminável. Mas, enfim, reaqueci pela quarta vez uma sopa de pacote que fiz na quinta da semana passada, preparei minha bisnaguinha de patê de fígado com requeijão light e também outra de sobremesa, com mumu, liguei a tevê e o DVD, sentei no sofá, coloquei as pernas pra cima e comecei a assistir a um filme idiota que aluguei. A sopa aqueceu legal. Dos pés às mãos. Pela 1h30 os olhos começaram a fechar voluntariamente. Hora de ir pra cama. Antes escovar os dentes e lavar o rosto. Como tive vontade de transgredir esse ritual. Água muito fria! Mas se fizesse isso hoje, faria outro dia de novo, e por motivos que naquele momento me pareceriam ainda mais plausíveis. Escovei os dentes meio a facão, lavei só as pálpebras e fui deitar na minha enorme cama, soterrada por quatro camadas de cobertas. Mas eis que o sono se foi. Entrei naquela maldita fase entre o delírio e o sono. Comecei a refletir sobre o trabalho de horas atrás, imaginei erros ediondos, outros dias de trabalho tão ruins quanto aquele.
E rememorei o momento em que a porteira do edifício dos meus pais, com quem simpatizei, me pediu emprestados 10 reais. Disse que não tinha naquele momento. Mas ela tá grávida de cinco meses, primeiro filho, deve estar começando o enxoval, e eu disse que não podia emprestar dinheiro. Como sou despresível!
Vivo uma fase de erupções. Que momento difícil. Queria fechar o livro e começar uma história toda do zero. Mudar de trabalho, de cidade, de amigos, de hábitos, de guarda-roupa, de carro. Escapismo puro! Uma das características dos escritores do século 19. Queriam vida nova, também enfrentavam problemas sociais. Tinham a tuberculose pra vencer. Era o mal do século. Álvares de Azevedo é um membro dessa confraria. Boêmio, morreu aos 20 anos, vencido pelos pulmões. Segue um pouco de sua melancolia juvenil.

Amor
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!