quinta-feira, agosto 03, 2006

Erupções

Ontem à noite, depois de um dia de trabalho do cão, desumano, estressante, caótico, tudo de pior que pode haver quando não se consegue atuar com o mínimo de dignidade, cheguei em casa louca pra me proprorcionar um pouco de prazer. Peguei um pão daqueles bisnaguinha, requeijão e patê de fígado (sim, adoro patê de fígado, daqueles bme fortes!). Quando cortava o dito, cortei tb parte do dedo indicador da mão esquerda, com a qual segurava o pão. Sangrou um monte. Mas não senti dor. A dor psicológica tava latejando mais que a física. Estafa mental. Difícil desligar as turbinas depois de uma jornada tão longa e interminável. Mas, enfim, reaqueci pela quarta vez uma sopa de pacote que fiz na quinta da semana passada, preparei minha bisnaguinha de patê de fígado com requeijão light e também outra de sobremesa, com mumu, liguei a tevê e o DVD, sentei no sofá, coloquei as pernas pra cima e comecei a assistir a um filme idiota que aluguei. A sopa aqueceu legal. Dos pés às mãos. Pela 1h30 os olhos começaram a fechar voluntariamente. Hora de ir pra cama. Antes escovar os dentes e lavar o rosto. Como tive vontade de transgredir esse ritual. Água muito fria! Mas se fizesse isso hoje, faria outro dia de novo, e por motivos que naquele momento me pareceriam ainda mais plausíveis. Escovei os dentes meio a facão, lavei só as pálpebras e fui deitar na minha enorme cama, soterrada por quatro camadas de cobertas. Mas eis que o sono se foi. Entrei naquela maldita fase entre o delírio e o sono. Comecei a refletir sobre o trabalho de horas atrás, imaginei erros ediondos, outros dias de trabalho tão ruins quanto aquele.
E rememorei o momento em que a porteira do edifício dos meus pais, com quem simpatizei, me pediu emprestados 10 reais. Disse que não tinha naquele momento. Mas ela tá grávida de cinco meses, primeiro filho, deve estar começando o enxoval, e eu disse que não podia emprestar dinheiro. Como sou despresível!
Vivo uma fase de erupções. Que momento difícil. Queria fechar o livro e começar uma história toda do zero. Mudar de trabalho, de cidade, de amigos, de hábitos, de guarda-roupa, de carro. Escapismo puro! Uma das características dos escritores do século 19. Queriam vida nova, também enfrentavam problemas sociais. Tinham a tuberculose pra vencer. Era o mal do século. Álvares de Azevedo é um membro dessa confraria. Boêmio, morreu aos 20 anos, vencido pelos pulmões. Segue um pouco de sua melancolia juvenil.

Amor
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Mude! Jogue tudo para o alto! Tenho um lugar ótimo para te indicar, para fixares nova casa. Casualmente, é a mesma cidade onde estou hoje, AHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Já pensou? Seria bom DEMAIS!!! Pense nisso. Cama aqui já tens! Beijocas

6:49 AM  

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