Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Meninos e mulheres

Há um rito de passagem muito bem estabelecido, que separa a menina da mulher. Nós sangramos. E, a partir daí, brincar de boneca é contrasenso, chorar por birra é despautério. É preciso abandonar as chiquinhas, assumir as espinhas, comprar o absorvente na farmácia (morrendo de vergonha de olhar pra cara do atendente, com se você fosse a única a usar esses troços!). Os peitos crescem, aparecem as famigeradas celulites, os pêlos também dão as caras. Muito chorei de cólica, deitada no sofá da casa da praia, louca pra ir pescar lambari, mas p. da cara por ter de lidar com esses dilemas femininos.
E os meninos, quando passam a ser homens? Seria quando aparecem os primeiros pêlos na cara, nas partes íntimas, no peito? Ou quando a voz esganiça?
Não voto em nenhum nesses acontecimentos fisiológicos. Não tem pêlo nem voz descompassada que os obrigue a encarar a maturidade de frente.
Também pergunto quais os objetivos, as metas, os propósitos de vida de homens e mulheres?
Para aquelas que passaram pelo rito da menima mulher e captaram a profundidade do endométrio vindo abaixo, queremos a independência. Até os 16, dividi quarto com meu mano. Conquistado o quarto individual, não havia cristo que irrompesse meu mausoléu. Meu quarto era meu domínio. E por nove anos ele me serviu, tinha o tamanho das minhas pretensões territoriais. Aí veio o primeiro namorado. Era um quarto, de novo, pra duas pessoas. Aí veio a namorada do meu irmão. Era um apartamento para seis pessoas.
Mas eu me perdi no raciocínio... o que as mulheres querem, afinal? Pergunta complexa, porque queremos nos estabelecer profissionalmente e também cultivamos um desejo ancestral de constituir família. Até os 24 anos, esse negócio "cavernesco" da multiplicação não me pertencia. Mas aí a gente conhece sujeitos que parecem ser espécies dignas de procriação, e esse instinto aflora. Buenas, mas eu tratei de calar.
Mas o que as mulheres querem, oras? A gente quer matar a pau no trabalho. Se nossas mães trabalharam para ajudar no nosso sustento, nós queremos mais: queremos ser fodonas. Queremos ser melhores do que os homens. A lógica da concorrência de mercado nos cobra isso. E homens que nos veem como pares de pernas bem torneadas acompanhados de um acessório chamado cérebro nos instigam a provar o contrário. E, mais do que ganhar cabelos brancos antes dos 30 e colecionar rugas de preocupação de tanto se esgualepar trabalhando, a gente quer ganhar dinheiro suficiente pra comprar nossos balangandãs, creminhos, roupinhas, eventualmente comprar um carrinho que nos permita facilitar a locomoção.
E o principal de tudo isso: sair do quarto da casa dos pais. Porque a cama de solteiro, o som e a prateleira de livros não nos proporcionam mais a sensação de liberdade e independência de antes. A gente quer ter quatro paredes mais amplas a nos rodear! Pra aprender a se virar sozinhas, não precisar mais dar satisfações pros pais, ir e vir ao bel prazer. E, claro, arcar com as contas, a limpeza, a manutenção do "quarto grande".
E o que mais? Pois é... a gente já provou que é tão capaz quanto os homens, já comprou o carrinho dos sonhos e tem um apê todinho pra chamar de seu. O que tá faltando? De repente um ser pra dividir todas essas conquistas, com a vantagem de que ele não vai precisar ajudar a lutar por elas. Mas eu entendo, é complicado para os seres do sexo masculino entrar nesse universo. São muitos anos de independência, de vida dedicada ao trabalho. Como não se intimidar em encarar um pacote completo desses? Só sendo muito seguro de si.
Mas o que, então, os homens querem da vida?
Olha, tem aqueles que, a exemplo de seus pais, querem se ralar no trabalho, pra ganhar dinheiro suficiente pra começar uma família como aquela que têm por referência. Mas, antes disso, eles querem juntar dinheiro suficiente pra comprar o sonho de consumo de 100 entre 100 homo erectus: o possante! Quer dizer, não necessariamente comprar. Porque tem pai que dá aquela força e presenteia o filhão com o sonho de consumo.
E depois? Ah, eles querem se achar no mercado de trabalho. E se esforçam pra ganhar mais do que as meninas. Ralam mesmo. Mas eles também precisam de independência, como as gurias? Olha, acho que não. Pelo menos até estarem faturando tanto que fica até vergonhoso continuar dormindo na cama de solteiro que a mãe arruma todos os dias. Aliás, não sei se é a ânsia por liberdade que faz um homem voar solo. Acho que é a angústia dos pais em ter um barbado semi-independente em casa que os motiva a deixar o ninho.
Uma breve reflexão: pense numa mulher de 30 e muitos, 4o e muitos, morando com os progenitores. "Solteirona, pobrezinha. Vai ficar em casa o resto da vida pra cuidar dos pais na velhice". Agora pense num homem de 30 e muitos, 40 e muitos, morando com papai e mamãe. "Meu filhinho tá aí, tadinho. Não encontrou mulher tão boa quanto eu pra cuidar dele. Que fique em casa, então!" Cruel, hein?
Mas o que eles querem, afinal? Um videogame pra chamar de seu? Viajar pelo mundo? Curtir a vida adoidados?
Francamente, não sei.

Domingo, Outubro 25, 2009

Sobre noivas e recomeços

Casamentos me deprimem. Chega um determinado ponto da festa, aquele em que todos estão na pista, dançando YMCA ou It´s rainning man, usando aqueles adereços ridículos do tipo pulseiras fluorescentes, óculos de guitarra, penduricalhos piscantes... esse momento que transborda felicidade, bem, nesse momento eu paro e observo essa euforia contagiante e o quanto ela está distante de mim. Ir a casamentos quando se está desacreditada do amor é pedir para achar tudo desperdício de dinheiro, uma grande besteira, um faz de conta caro de mais.
Pois eu e a noiva vivemos momentos de nossas vidas que vão nos acompanhar para sempre. Dividir a adolescência com alguém é cheio de significados. É uma fase tosca, em que a gente não sabe direito a que veio, para onde vai, qual o sentido da vida, entre outros grilos. Pois a noiva dividiu esses momentos comigo. Dormi na casa dela, no quarto da mãe dela, para aproveitar o ar condicionado nos dias quentes do verão. Um dia à tarde, fomos na casa da tia dela tomar banho de piscina e gravar fitinhas K7. Lembro até hoje o repertório: George Michel, Caetano e outras preciosidades. Isso quando a gente não ouvia Fernanda Abreu e Paralamas no rádio da sala do apê dela, na Pinto Bandeira.
Aí não sei porque cargas d´água, deixamos de ser grandes amigas. Quer dizer, paramos de fazer programinhas juntas. Talvez por algo estúpido que eu tenha dito ou feito (eu era meio rude nessa época, meio meninona acho), ou simplesmente porque resolvemos experimentar a cumplicidade de outra pessoa.
Passaram-se uns 11, 12 anos desde essa época. Deixamos de ser amigas? Bem capaz! Volta e meia nos falamos para saber o rumo que cada uma tomou, fofocar sobre as outras colegas, dividir planos de vida, tentar marcar reencontros.
Ontem rolou o reencontro. E como a gente se emocionou! Como a gente chorou relembrando uma fase da vida pra qual a gente nem deu a devida importância, mas que foi, sem sombra de dúvida, a mais importante de nossas vidas.
Eu me senti importante. Não tanto quanto a noiva, que tinha um time de fotógrafos e um garçon pra encher a taça de espumante só pra ela. Mas eu vi que, para aquela noivinha faceira da vida, era importante que eu pudesse presenciar aquele momento mágico.
Minha mente voou longe.
Misto de orgulho da amiga com desesperança.
Mas o espumante ajudou a segurar a onda, dar risadas, dançar e viajar na perspectiva de que um dia vai ser a minha vez de dividir minha felicidade conjugal com elas.
Por ora, é voltar a frequentar os churrascos em famílias, dar atenção aos amigos, curtir a solidão. Mas não por muito tempo. Esse negócio de solidão me deprime e eu não nasci pra isso.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Ogros e gatos

Acredite, de certa forma, o ogro faz falta.
O cheiro de lama, no fundinho, tem cheiro de aconchego. A estupidez, de carinho enrustido.
Gatos de botas são traiçoeiros... te procuram com aquela carinha preparada só quando precisam, quando convém. Quando querem pouso, banhinho, leitinho, colinho. Não rola carinho expontâneo, surpresa, romance. É tudo como você esperava e às vezes menos.
Não curto gato. Esse negócio de ir e vir quando quer, sem compromisso, é muito desapego. Eu tô na fase do apego, oras.
E ogros..., putz, ogros querem ogras.
Não, eu não sou uma.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

O ogro

O silêncio me incomoda, a ausência me consome, a mentira me atormenta.
O ogro, verde, grandão, desengonçado e totalmente bruto, abriu os olhos da princesa Fiona. No mundo tão, tão, tão distante, até poderia funcionar, mas princesas e ogros não dão certo.
É outubro e, até agora, nada de animador.
Cartomante, cartomante...

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

A gente sempre volta diferente

Voltei faz pouco de uma semana longe da civilização, mas perto – muito perto – dos meus progenitores.
A experiência foi curiosa. Primeiro, porque era o fim do mundo... claro, paradisíaco, mas ainda o fim do mundo. Sabe onde o diabo perdeu as meias? Pois acho que descobri onde Deus perdeu as cuecas... Tipo, dois aviões, um ônibus, uma balsa, uma caminhonete com dois pneus furados e um táxi. Tudo isso pra chegar a Taipu de Fora, nos senfins da Bahia.
Mar espetacular, muitos arrecifes, muito sol, muita comida boa, muitas noites bem dormidas (isso, claro, depois do Baygon e dos roncos do papis), muitas caminhadas. Mas tudo o que é de mais enjoa... e sete dias nessa rotina chegam a ser estressantes de tão parados.
Mas tudo ótimo... eu fui sabendo que poderia ser assim, então, segurei a onda. Ainda mais quando papis banca tudo e faz questão da sua presença. Muito fofo meu pai, aliás. Tá perdoado pelos roncos mega-altos.
Hoje rolou um episódio muito curioso. Meu pai desabafou. Queria entender porque minha mãe desligou do mundo. Porque ela, assim como ele, não liga pra mãe pra contar da viagem, não comunica as irmãs do retorno... Bom, eu não sei bem o que aconteceu com a minha mãe pra ela ficar assim, só sei que o mesmo acontece quando eles viajam. Quem liga pra contar como estão as coisas e saber da gente é meu pai.
Talvez eu tenha essa coisa individualista dela... talvez venha daí minha intolerância à convivência demasiada com muita gente, minha necessidade de silêncio.
Mas tudo bem, pelo menos quanto a mim... já minha mãe, bom, ela vai precisar trabalhar isso.
Mas eu voltei bem descansada, bem vermelha e bem roliça...
No retorno, algumas coisas mudaram, outras estão na mesma, outras estão na iminência de mudar, assim espero!
Vejamos, porque amanhã volto à rotina!
Bons fluidos pra mim!

Domingo, Setembro 20, 2009

Era pra eu estar feliz

Era para eu estar faceira, ansiosa, feliz. Amanhã, a essa hora, estarei em território desconhecido, na companhia de meus pais, próximo de chegar ao paraíso na terra.
Ontem saí. Me vesti bem bonita, passei batom vermelho, perfume da Madonna, estava realmente nos trinques. Mas era só o visual. Por dentro, estava triste. Tentei. Foram duas horas de gente feliz ao meu redor, mas meu sorriso saía forçado e resolvi ir embora. Me senti sufocada e imensamente sozinha.
Estou de férias! Há tempos isso não acontecia. Não assim, pra descansar, pra curtir. Pergunta se isso me torna a pessoa mais reluzente do mundo? Não.
Pergunta por quê? Porque nada disso faz sentido se não há com quem dividir, não há com quem somar, não há com quem tomar chima no sol, ficar até mais tarde na cama, se embrenhar no mato e curtir o som da natureza. Quem eu quero não me quer. Ou me quer mais ou menos. Ou às vezes me quer mas, na maioria delas, nem lembra que eu existo.
Eu quero sempre, a toda hora, do momento em que acordo ao momento em que durmo. Isso não é doentio, não. É gostar, é carinho. Controlar isso é foda! Deveria fazer um cursinho rápido de budismo, aprender a entoar mantras que me ajudassem a manter o foco, a canalizar a energia pro que vale a pena. Óuuuummmmmmmmmm.... óuuuummmmmmmm.... óuuummmmmm.
Vira e mexe, eu falo. Falo tudo. Solto o verbo. E a sensação, no dia seguinte, é de que coloquei tudo a perder. E aí vem o silêncio. Interminável. Até que me dobro e ligo, escrevo.
Eu não queria que fosse assim. Eu queria ser necessária e que essa vontade movesse dedos para ligar, a voz pra falar. Mas aí quando fala, às vezes saem pérolas como as de que não me encaixo em sua vida. De fato, encaixar uma mulher de 1,75m (arredondados, ok) na vida de qualquer pessoa é um baita desafio. Ainda mais quando ela não é só carne e osso, mas cérebro, vontades, necessidades, desejos.
Meu sentimento é imenso. Mas um dia ele vai esmorecer. Ou vai encontrar alento no sentimento de outro que o queira e faça por merecer. Eu não torço por isso. Eu torço para que meu sentimento tanto bata até que fure o escudo no peito desse cara.

Bom, preciso arrumar as malas.
Eu vou morrer de saudade. Não sei bem do quê, porque se estivesse aqui ou lá, não iria fazer diferença... a ausência é a mesma, afinal. Segunda tô de volta. Espero que morena jambo e cheia de energia.
; )

Sábado, Setembro 12, 2009

Quando eu ficar grande

Tenho mãos de criança. Bem pequeninhas e gordinhas. Dizem que herdei do meu avô paterno, dono de mãozinhas igualmente fofas.
Lá pelos 15 anos, comecei a invejar os longos dedos e as unhas igualmente compridas das mulheres da família. O que me diziam? "Quando você ficar mais velha, suas mãos vão crescer, fica tranquila".
Também aos 15, via a barriguinha sarada das minhas tias modeletes e sonhava em ter abdômen tanquinho. Eu era magrela, mas a barriga nada de ficar sequinha. O que me diziam? "Quando você ficar mais velha, sua barriga vai ficar definida, fica tranquila".
Igualmente aos 15, e também aos 18, aos 25, agora aos 28, me incomodava profundamente com as famigeradas espinhas que não deixam esse corpo que não as pertence. O que me diziam? "Quando você ficar mais velha, elas vão sumir".
Resumo da ópera: minha mão continua minúscula, minha barriga não ficou tanquinho e as espinhas ainda me atormentam.
Só que agora, mais perto dos "inta", não bastassem esses engodos, tenho de conviver com indigestos fios brancos na peruca e preciso de óculos para enxergar dois metros adiante dos olhos. É mole?
Mas quando eu ficar grande isso tudo passa...