Família
Dá para conceber ir a um casamento e ficar triste? Dá pra imaginar sair do casamento brigada (e embriagada, diga-se de passagem) e acordar no dia seguinte desejando não ter testemunhado um momento tão feliz na vida de um casal, de suas famílias e amigos? Eu já fiquei triste num enlace, mas na época o motivo era outro: estava bem solteira. Saí mais cedo da festa porque parecia não ter sentido algum estar ali. Ontem, bateu a melancolia não porque estivesse desacompanhada. Muito pelo contrário, estava na companhia do meu namorado, potencial noivo e futuro marido. Ontem, aliás, estava na companhia de todos meus familiares por parte de pai. Exceto por dois, que hoje habitam o reino dos céus. Esqueci de mencionar que também estava na companhia de uma taça de espumante que teimou em não deixar minhas mãos à sós. Mas essas duas pessoinhas que faltaram ao casório se fizeram presentes na forma de um discurso. O noivo, meu primo, falou bonito, se emocionou e provocou lágrimas em todos, todinhos. Pior é que eu já havia me lavado vendo as fotos da mãe dele reproduzidas num telão. Uma pessoa, em especial, cortou meu coração. Minha avó. A imponente precurssora das Marias Chuteiras cansou de viver. Se há um mês ela se recusava veementemente em lançar mão do auxílio de uma bengala para se movimentar, ontem ela mal conseguiu mover os pés, mesmo com o objeto agarrado à mão direita. Era como se, depois de conduzir meu primo ao altar, ela tivesse cumprido sua missão na Terra. E eu entendo plenamente suas razões. A dor de ter perdido o companheiro da vida e a única filha lateja de maneira incontrolável em seu peito. Não dá mais para viver com tantas memórias e nenhuma presença. Lembro-me perfeitamente dos últimos dias do meu avô aqui conosco. O que mais me impressionou foram seus olhos opacos, profundos e sem vida. Parecia que havia envelhecido décadas em dias. Foi assim quando vi minha vó ontem. O que será de nós sem a matriarca dos Pschichholz? Quem vai juntar a família para churrascos dominicais? Quem vai puxar a reza nas noites de Natal? Eu não queria pensar nisso, juro que não. Mas é inevitável, quase uma autopunição por ter estado tão distante nos últimos dias. Eu tenho um papel meio ingrato na família. Acho que por conta da minha profissão, todos me têm como porta-voz, como aquela que vai ler as mensagens de fim de ano e falar palavras bonitas nos velórios. Culpa minha, porque eu falo mesmo. Mas deveria falar mais, muito mais. E não engolir calada mágoas acumuladas desde os tempos que nem sequer existia. Não falo mais porque a prudência me impede. Ontem, por causa da "marvada", fiz o que não devia. E o pior é que nem sei o que fiz. Só sei que eu e meu pai quebramos os pratos. E ambos somos cabeças duras por demais para termos a humildade de pedir perdão. Antes da função, no sábado ao meio-dia, deitei em seu peito. Engraçado é que ele nem sabia o que fazer comigo ali, à espera do seu carinho. Coisa mais germânica essa frieza que nos consome. Por causa dela vamos morrer sem ter dito o que precisava ser falado. Por causa dela nos tornamos pessoas amargas e rancorosas. Mas não vai ser por causa dela que eu vou desistir de ser feliz e ver minha família feliz. Só que pra isso acontecer, temo que muitas lágrimas vão rolar... Que rolem, e permitam a fluidez das emoções, abraços francos, palavras verdadeiras e carinho entre pais e filhos.

