
Descrição de cena típica de Dia dos Namorados. Acompanhe:
16h30, esquina da Avenida Nações Unidas com a Rua Marcílio Dias, Centro da decandente metrópole calçadista Novo Hamburgo.
Uma acanhada jovem de uns 17 anos segura com um desconforto absurdo um buquê de rosas vermelhas (umas duas dúzias, calculo) envoltas naquele papel crepom bagaceiro típico de floricultura baratinha.
Talvez estivesse saíndo do trabalho, para onde o querido amado mandou entregar o óbvio presente de Dia dos Abobados.
Ela distanciava o embrulho do corpo de tal maneira que, se pudesse, jogáva-o no Arroio Luiz Rau, tamanha vergonha que a infeliz demonstrava. Parecia segurar um pacote com uma bomba prestes a explodir, ou peixe podre, sei lá. A ânsia era tanta para atravessar a rua e chegar em casa que ela não suportava esperar a sinaleira fechar. Disputava espaço entre os carros, a passos apressados e desengonçados. A calça jeans apertada e as botas plataforma dificultavam ainda mais seu deslocamento. Olhava para os lados em rápidos movimentos de virada de rosto, jogando os cabelos de maneira que escondessem seu rosto.
- Que merda! Pq esse infeliz não mandou esse buquê fuleiro lá pra casa, pra me poupar desse papelão! Bah, mas aí meus pais iam ver. Não sei o que ia ser pior! - devia estar matutando a jovem namoradinha.
As orelhas do rapaz satisfeito com a atitude que julgava ser das mais românticas deviam estar fervendo a essa altura... podre guri! Gastou uma nota tentando agradar a moça morta de vergonha...
Mas é isso aí!
Mais um Dia dos Namorados que chega e, passada a meia-noite, se despede. E com ele se vai a obrigação de agradar o companheiro, gastar neurônios tentando surpreendê-lo e sempre cair no lugar comum, no óbvio, no piegas.
Não são observações de uma solteira amargurada, não!
Já tive Dias dos Namorados gloriosos!
Lembro-me do primeiro, aos 18.
Meu presente (um pijama da Hering - um shortinho branco com diversos escritos "love" em vermelho e uma regata com a frase borbada no centro) foi entregue por um ex-colega de aula no shopping. É, o tal namorado quis me "surpreender". Na real, é que ainda não sabíamos definir o que rolava. Faltava que alguém estabelecesse que estávamos, enfim, namorando. Adivinha quem bateu o martelo? Eu, claro. Ah, ele apareceu na esquina do corredor do dito centro de compras segundos depois que eu recebi o pacote do pombo correio. Época hilária! Namorávamos nos bancos do shoping. Até que um segurança cutucasse o ombro dele e mandasse parar com a pouca vergonha. No caso, beijinhos singelos. Será que ainda expulsam jovens pombinhos dos cantos dos shoppings?
Enfim, reflexões acerca da data.
Se é um mero instrumento do comércio pra aquecer as vendas, definição muito capitalista.
Nos faltam, hoje em dia, motivos pra comemorar.
Que sejam criados artificialmente, então.