
Estou ouvindo Angela Ro Ro.
Pra ativar a melancolia, me fazer sentir pior, aguçar meu destempero, encaminhar a depressão.
Fazia tempo que não sentia isso.
Há exatos 11 anos, aliás.
O que muda hoje daquela situação em que me coloquei aos 15 anos é que não foi só um homem que me deixou assim.
Seria ridículo, convenhamos!
Tantos já passaram, e outros tantos hão de passar pela minha vida, que seria muito fatalista e simplório - aliás até um disparate - creditar tudo isso às já batidas decepções amorosas.
O que também difere essa onda de amargura da que atravessei anos atrás é o ímpeto suicida. Ele ainda não despertou. E espero que assim permaneça.
Se morresse, deixaria meus pais atônitos. Acredito ter sido uma filha muito boa, que talvez tenha superado suas expectativas acerca do rumo que dei para minha vida.
E meus avós, pobrezinhos... não dá.
Mas é só por eles, mesmo.
Não há outros motivos que me levam a pensar a permanecer aqui, no plano terreno.
E como acredito em vida após a morte, não quero experimentar o purgatório.
Alguém aí quer me matar meio assim, sem querer? Alguém aí tem um vírus mortal, que pode ser comprado baratinho, aplicado facilzinho e de ação rapidinha?
Não sei o que me bastaria pra sair dessa.
Fazer festa e beber todas, dançar todas?
Supérfluo.
Tenho que encontrar em mim aquela guria otimista, que não se deixa abater pelas derrotas, porque elas servem de aprendizado e ajudam nas vitórias.
Lindo isso, praticamente uma Martha Medeiros...
Bobagem! Demagogia! Balela. Papinho de otimista que, nem tão no fundo assim, é desgostoso com a vida.
Enchi o saco de viajar no meu inconsciente e achar motivos que sustentem uma alegria de viver falsa.
Batalhei pra chegar onde estou e me sinto com nada. Porque o que tenho não me traz felicidade. Pelo contrário, é motivo de insônia, sensação de impotência, incompetência.
Pior é quando achava que tinha e, na verdade, não tinha nada.
Um nada comprovado por um torpedo.
Porra, um torpedo!
Será que também demitem por torpedo?
Seria legal... uma nova modalidade de demissão, nessa era da impessoalidade.
Quero ficar só e encontrar em mim uma companhia agradável.
Afinal, se não posso contar com o parceiro ideal, que seja a parceira que aparece no espelho!
Isso se não brigarmos. Se bem que não sou de briga. Sou de paz. Sou quieta, instrospectiva. Agüento na carne.
Veja o que minha mais nova amiga Angela tem a oferecer aos depressivos de plantão... engraçado, acho que nos identificamos em vários aspectos. Ela curte uma biritinha, eu tb. No meu caso não a ponto de ser alcoolista, claro. Mas é um escapismo fenomenal! A gente fala bobagem, deixa a alma abrir a boca. E é nessas horas que me ferro... hahaha! Ah, e eu ainda não parti pra experiências com parcerias de mesmo sexo...
Vai Angelinha...
Camisa de força
Quero ouvir você dizer que eu estou doente
Que não sei mais o que faço
Que me perdi completamente
Quero ouvir a sua voz gritar que enlouqueci
Que meu riso é feito pranto e que meu pranto ri
Pois não faz mal, ninguém corre mais que a corça
No natal me dê uma camisa de força
Quero ver no jornal que eu bato berro e brigo
Mas quem sonhou dormiu comigo e ganhou mais um amigo
Seu conselho é que a bebida é minha inimiga,
Mas me protege e do seu frio e ao menos me abriga
Não faz mal o que brilha é a loucura
Passa aqui a garrafa que eu devolvo a cura
Quero ver a grande fila no final do mundo
Toda a gente se empurrando desse jeito imundo
Quero ver a sua cara olhar o viramundo
E Deus me atender primeiro porque sou vagabundo
Mas não faz mal é dos loucos todo o céu
Sou criança bem doce mais gostosa que o mel.