Foi-se a infância
Nossos avós são a ligação que temos com a infância. Perdê-los é como soltar a mão na brincadeira de roda e cair no chão. O tombo dói, nos faz chorar, e a gente jura que nunca mais vai brincar de novo.
Essa semana perdi minha avó Myrna. Nossa dama de ferro, nosso porto seguro, nossa fortaleza. Doeu mais que tombo. Mas ao mesmo tempo entendi que assim tinha de ser. Fosse eu, talvez não tivesse aguentado os três anos que segurou sem a companhia de meu avô Cip. Que sentido teria uma vida quando se perde o companheiro de 53 anos? Na real 58, porque ela o conheceu com 15 anos. Mas ela segurou por três anos, talvez para poder ver um dos netos casar. Eu, neta mais velha, não consegui lhe dar essa felicidade. Mas onde quer que esteja agora, é claro que vai iluminar meus passos, de algum jeito olhar por mim. Assim como o faziam antes o vô Cip e a Milha.
Acho que agora ficamos todos adultos. Mesmo minha prima mais nova, a Laura. Aos 10 anos, acompanhou os rituais de sepultamento. Ora com sorriso no rosto, ora com lágrimas insistentes. Meu primeiro velório foi da bisa Tony. Tinha 9 anos e essa avó que se foi terça passada, dia 18, pegou minha mão e a colocou sobre a da bisa, dizendo que deveria rezar e me despedir dela. Desde então, virou incômodo colocar a mão sobre as mãos de quem já se foi. Mas tudo bem, fiz o que ela me ensinou.
Há cenas que me marcam muito nesses momentos de despedida. Uma delas foi ver meu irmão entrar aos prantos na capela. Já tinha visto isso quando do velório da Milha. É de cortar o coração. Ver os olhos do meu pai marejados e tímidas lágrimas escorrerem deles também foi forte. A última vez que isso tinha acontecido foi quando nos revimos depois da viagem que fiz pro Canadá. Mas foi um choro de felicidade, de saudade.
O que mais me conforta nessa situação é poder ter feito pra minha avó Myrna uma última homenagem, e bem do meu jeito. Ela foi assunto de um artigo lido por milhares de pessoas. E o artigo virou assunto do casamento do meu irmão no dia 8 e também do velório, 10 dias depois. Escrever, afinal, é o melhor jeito que encontrei de expressar o que sinto. Se for falar, não vai sair.
Também vai ficar na minha memória, para carregar para as próximas gerações de Pschichholz a tarde das bolachas de Natal. Eu, ela e a Laura passamos esse dia juntas, fazendo bolachinhas cujas receitas ela aprendeu com a mãe dela. Inclusive, com forminhas que foram dela. Pura nostalgia! Quem, nesse corre-corre dos dias, tira tempo para fazer bolachinhas de Natal com a vó? Eu. E me arrependo amargamente de não ter passado mais tempo com ela, de ter feito mais cafuné, ter lhe escrito mais textos, presenteado com mais flores.
É por isso que, a partir de agora, vou me agarrar à última guardiã da minha infância: a vó Hilde. Meu anjinho vai ter de me aturar com mais frequência. E vai ter de segurar as pontas até o dia do meu casamento, do nascimento dos meus filhos. Quero poder estar presente no dia em que ela ler as fábulas de Esopo para os meus pequenos.
Ciclos da vida... uns morrem para que outros nasçam ou mesmo renasçam depois de uma perda.
É hora de fazer uma nova tattoo... e vai ser o Santo Anjo.
Essa semana perdi minha avó Myrna. Nossa dama de ferro, nosso porto seguro, nossa fortaleza. Doeu mais que tombo. Mas ao mesmo tempo entendi que assim tinha de ser. Fosse eu, talvez não tivesse aguentado os três anos que segurou sem a companhia de meu avô Cip. Que sentido teria uma vida quando se perde o companheiro de 53 anos? Na real 58, porque ela o conheceu com 15 anos. Mas ela segurou por três anos, talvez para poder ver um dos netos casar. Eu, neta mais velha, não consegui lhe dar essa felicidade. Mas onde quer que esteja agora, é claro que vai iluminar meus passos, de algum jeito olhar por mim. Assim como o faziam antes o vô Cip e a Milha.
Acho que agora ficamos todos adultos. Mesmo minha prima mais nova, a Laura. Aos 10 anos, acompanhou os rituais de sepultamento. Ora com sorriso no rosto, ora com lágrimas insistentes. Meu primeiro velório foi da bisa Tony. Tinha 9 anos e essa avó que se foi terça passada, dia 18, pegou minha mão e a colocou sobre a da bisa, dizendo que deveria rezar e me despedir dela. Desde então, virou incômodo colocar a mão sobre as mãos de quem já se foi. Mas tudo bem, fiz o que ela me ensinou.
Há cenas que me marcam muito nesses momentos de despedida. Uma delas foi ver meu irmão entrar aos prantos na capela. Já tinha visto isso quando do velório da Milha. É de cortar o coração. Ver os olhos do meu pai marejados e tímidas lágrimas escorrerem deles também foi forte. A última vez que isso tinha acontecido foi quando nos revimos depois da viagem que fiz pro Canadá. Mas foi um choro de felicidade, de saudade.
O que mais me conforta nessa situação é poder ter feito pra minha avó Myrna uma última homenagem, e bem do meu jeito. Ela foi assunto de um artigo lido por milhares de pessoas. E o artigo virou assunto do casamento do meu irmão no dia 8 e também do velório, 10 dias depois. Escrever, afinal, é o melhor jeito que encontrei de expressar o que sinto. Se for falar, não vai sair.
Também vai ficar na minha memória, para carregar para as próximas gerações de Pschichholz a tarde das bolachas de Natal. Eu, ela e a Laura passamos esse dia juntas, fazendo bolachinhas cujas receitas ela aprendeu com a mãe dela. Inclusive, com forminhas que foram dela. Pura nostalgia! Quem, nesse corre-corre dos dias, tira tempo para fazer bolachinhas de Natal com a vó? Eu. E me arrependo amargamente de não ter passado mais tempo com ela, de ter feito mais cafuné, ter lhe escrito mais textos, presenteado com mais flores.
É por isso que, a partir de agora, vou me agarrar à última guardiã da minha infância: a vó Hilde. Meu anjinho vai ter de me aturar com mais frequência. E vai ter de segurar as pontas até o dia do meu casamento, do nascimento dos meus filhos. Quero poder estar presente no dia em que ela ler as fábulas de Esopo para os meus pequenos.
Ciclos da vida... uns morrem para que outros nasçam ou mesmo renasçam depois de uma perda.
É hora de fazer uma nova tattoo... e vai ser o Santo Anjo.

