domingo, fevereiro 13, 2011

Sobre irmãos

Diz minha mãe que quando meu irmão nasceu eu, do alto dos meus quatro anos, quis voltar a mamar no peito dela. Nojento, hein? Mas argumentam os especialistas que é puro ciúme. Claro que eu provei, detestei e voltei pra boa e velha dedeira de Nescau.

Ocorre que esse guri entrou na minha vida pra esculhambar. Primeiro, porque até então eu era a dona absoluta do meu quarto, o que deixei de ser a partir daquele 6 de outubro de 1984. Não bastasse a invasão total de privacidade, o guri ainda passou os longos 16 anos de convivência mútua dividindo parco espaço de 18 metros quadrados roncando. Quer mais? E tem... o pentelho não dormia sem que a luz do corredor não estivesse ligada. Pergunta nos olhos de quem a maldita luz refletia? Claro que nos meus.

Mas a pior parte de dividir quarto com o irmão era querer ficar sozinha curtindo um som e pensando no gatinho e a peste não colaborar. Bah... passei poucas e boas! Sem contar que quando a gente divide quarto não pode convidar coleguinha pra dormir em casa... a única visita que dormia entre nossas camas era a vó Hilde. E essa hóspede era das mais aguardadas. Na hora de dormir, era lei ela nos ler fábulas do Esopo, e, obviamente, meu irmão tinha preferência na escolha... sempre tinha que começar com a dos Sete Cabritinhos. Essa lembrança ficou tão marcada que nem lembro das fábulas que eu mais gostava.

Sabe de uma coisa boa de ter passado esses anos no mesmo quarto do Vitor? Ele não curtia tomar mamadeira todos os dias antes de dormir. O que eu fazia? Tomava a minha e depois a dele, claro.

Não sei se aquele tempo nos marcou tanto que, depois de 16 anos sob o mesmo teto expremido, enjoamos de nossas caras. Ocorre que lamento muito nosso atual distanciamento. Do guri xarope daquela época, super elétrico e sempre arteiro, sobrou um rapaz casado, trabalhador nota 10, de poucas palavras e super tranquilo.

Quando visito minha avó e minhas tias, a pergunta é recorrente: "Como tá o Vitor?" A resposta, sempre a mesma: "Não sei". Que vergonha.... moramos na mesma cidade, não quebramos os pratos ou coisa do tipo... simplesmente não cultivamos o hábito de trocar telefonemas, promover rodas de chimarrão em nossas casas, aquela coisa de cumadre e cumpadre.

Embora tenha passado grande parte da minha vida querendo ver o pirralho longe, para que eu pudesse voltar a reinar absoluta, hoje sinto como se não tivesse irmão. Coisa feita de se dizer. Um pecado até! Mas minha família tem essas esquisitices.

Tira um tempo com a minha mãe. Ela pode passar meses na praia e não me ligar uma vez sequer pra saber como anda a vida.

Tosco, eu sei. Mas a dona Susana é meio arisca pra telefones...

Ademais, cada um vai tomando seu rumo na vida e, de repente, nossos caminhos já não se interligam mais. A gente já não vai pra escola juntos, não estuda inglês juntos, não dorme no mesmo quarto. E o que nos identifica são traços semelhantes e o sobrenome igual. Nem os interessesm se assemelham. E de pensar que naquele tempo a gente respirava o mesmo ar, eu sabia dos cacuetes dele, ele manjada todos meus podres. Só sei que ele continua com um péssimo hábito. Constatei isso esses tempos na praia: continua assoando o nariz na pia, em alto e bom som, pra toda casa ouvir.

Quem sabe as coisas mudam, a necessidade de participar da vida um do outro volte e a gente até promova um revival das brigas, como nos tempos do apartamento da Gomes Jardim.

Saudades do Vitor.