Se morresse hoje, morreria feliz.
Refleti muito sobre isso nestes últimos dias.
Impossível não pensar nessa hipórtese diante da morte de alguém próximo, com quem se conviveu e que, até então, mesmo com a notícia da doença, parecia estar distante do reino dos céus. Porque somos jovens, cheios de vida, projetos, vontades, desejos, planos. E pra mim, vendo que, sim, a morte pode estar à espreita sem que nos dê aviso prévio quando da sua chegada, não há nada mais frustrante, triste, desesperador do que morrer sem ter vivido algum projeto de vida. Ou pelo menos estar prestes a realizá-lo, encaminhando-se pra isso.
Explico: há quem não os tenha, mas a maioria dos mortais planeja carreira, família, comprar o sonhado carro, ter um ap pra morar longe da barra da saia protetora da mãe, viajar pro exterior, ter uma turma de amigos insubstituíveis e parceiros pra tornar nossas vidas mais emocionantes. Eu, graças às forças superiores que nos guiam, tenho tudo isso hoje e por esse motivo morreria feliz. Claro que há muito ainda a conquistar, mas acho que até aqui tive uma existência plena. Não, não sou uma boba alegre, do tipo que mesmo quando tudo está uma merda, tenho sempre um sorriso na ponta dos lábios. Pelo contrário, quando fico puta, rosno feito pitbul prestes a se atracar na perna de alguém que arriscar uma aproximação. Mas dois minutos depois, passa. Doida, sei, mas é meio jeito. E, pasmem, sou feliz assim. Soltando as patas, fechando a cara e, segundos depois, largando uma piadinha sem muita graça mas que, pra mim, provocou euforia e mudou meu estado de espírito.
Essas coisas que acontecem ao nosso redor e nos entristecem batem como avisos. Avisos de que temos que viver o presente, fazer as coisas acontecerem hoje e não deixar pra depois, e depois e depois. Isso exige uma boa dose de coragem, de entusiasmo, de vontade. Convenhamos. Não há existência mais infeliz do que a estática.Reclamamos de que as coisas não vão bem, que a vida anda uma merda, mas todos os dias acordamos e cumprimos o mesmo ritual de anos. E vamos trabalhar com aquela má vontade que, se fosse 1% mais forte, não nos permitiria passar o crachá na catraca. Porra! Essa é a nossa vida! Não temos que fazer nada obrigados! Temos o dever de mudar o que não está bem! Se isso vai magoar, decepcionar pessoas, foda-se! Estamos falando da nossa vida, que pode não estar mais ali na próxima esquina que cruzarmos. E daí, aqueles planos de mudar de emprego e, finalmente, fazer o que se gosta, vão pro espaço. Assim como aquela viagem dos sonhos, aquele amor que nunca foi vivido plenamente.
Amigos, vivam plenamente, nem que isso lhes custe caras feias, inimigos, menos dinheiro na conta. Dinheiro, aliás, como já se cansou de falar, não traz felicidade plena. Pode nos levar a pequenas felicidades, proporcionar a efetivação de diversos sonhos, mas nada compensa a felicidade de, simplesmente, sentir-se pleno por estar rodeado de quem se gosta, fazendo o que se gosta, vivendo a vida mundana e bobinha que não precisa de nada mais pra ser melhor. Porque tudo está ali, é só pegar o carro e, 30 minutos depois, se está à beira do Guaíba assistindo àquele fantástico pôr-do-sol. Outros 15 nos levam a um passeio na Redenção, entre as barraquinhas sempre encantadoras do brique. Melhor ainda. Duas quadras da minha casa, ao custo de algumas passadas apressadas, estou no sofá da sala de tevê da casa dos meus pais, diante desse computador, com a tevê a cabo a meu dispor. Ah, e claro, envolta pelo afeto incondicional dos meus pais, muito bem alimentada pelo comidinha caprichada do meu pai e das guloseimas providenciadas pela minha mãe. Ficar longe disso? Hoje, não. Amanhã também. Nada, que eu tenha conhecido até agora, pode suprir essa sensação de ser querida, estar protegida, sentir-se amada.
Então, morreria hoje, sim.
Ah, o título era testamento, mas não tô na pilha de pensar pra quem deixaria minhas coisas hoje.