quinta-feira, setembro 07, 2006

Valeu a espera

Passamos a noite entre olhares. Aqueles de canto de olho, despretenciosos. Como de costume, observava tudo e todos, sem fixar a vista, até porque a noite estava apenas começando. Mas aquele cara de camiseta azul ficava ao redor, sem avançar, mas sempre presente. Caçador solitário, segurar a garrafa de longneck com ar blasé, cantarolando as músicas que lhe despertavam alguma lembrança. Não dançava. Só mexia levemente o corpo, sem fixar porto. Quando pensava que meu olhar 43 (bastante direto, aliás) o encorajaria a chegar junto, puxar conversa, eis que alguém se atravessava na sua frente. Papos vazios, de futuros ou atuais advogados com ambiciosos projetos de se tornarem juízes. Pra fugir do furdunço, me escondia em cantos pouco propícios à caça. E ele voltava a aparecer, mas sempre sem demonstrar muita ambição. A essa altura da festa, já tinha abandonado a idéia de conhecer o dito. Mas, enfim, em um último movimento audacioso, dei-lhe uma boa olhada e subi pra dançar no meio da multidão. E, novamente, meus ouvidos foram alugados. E, mais uma vez, me retirei do campo de batalha e parei no mesanino pra observar a movimentação dos corpos. O improvável, então, aconteceu. Ele se aproximou. E valeu a espera. Conversamos por longo tempo. Sondamos nossos corpos, o formato de nossas bocas e, enfim, nos beijamos. E valeu a espera, valeu cada minuto de expectativa.
Buenas, mas e o dia seguinte? Os dias seguintes... contendo a afobação, deixei a vontade dele aparecer. Eis que apareceu. Há menos de uma semana de nos conhecermos, almoçamos, andamos de mãos dadas, saímos...
Mas o coração, meu coração... está em compasso de espera. Com medo, muito medo, apertado e pouco disposto a grandes paixões. Fiquemos, então, com as médias e, quem sabe, atinjamos o patamar de grande paixão...