quinta-feira, agosto 17, 2006

Sem problemas


Não tenho grandes problemas na vida. Não tenho dívidas, não tenho ninguém pra sustentar, não tenho inimigos (declarados), não dependo da ajuda dos meus pais. Sou a típica mulher emancipada. No entanto, ainda não descobri os prazeres dessa situação. E tenho, sim, problemas existenciais, e aos montes, e crescendo em proporções monstruosas. Sabe por quê? Justamente porque me faltam preocupações substanciais, creio eu. Não que seja dada a questionamentos fúteis, do tipo "que roupa uso hoje?", "com quem vou ficar na festa de logo mais?" Nanananão. Apenas subexisto. Sem afetações. Me pergunto, constantemente, se estou no caminho certo, se tomei as decisões corretas, se poderia ser melhor, estar melhor, se não deveria arriscar, jogar tudo para o alto e aproveitar minha "emancipação".
Hoje à tarde, li um artigo do Nilson Lage na Zero Hora. Falava, a grosso modo, de retratos. Do quanto, na verdade, representam o íntimo do retratista e não o âmago de quem é retratado. Citou Dorian Grey, personagem de Oscar Wilder que tem seu auto-retrato pintado mas, ao contrário da lógica, é a pintura quem envelhece, não ele. Ora bolas, por que misturei alhos com bugalhos? Na verdade, quero fugir da auto-piedade. E buscar inspiração. Pensei em voltar a brincar com tintas, com argila, explorar a veia criativa ativada na adolescência, durante as aulas de artes. Assim, além de uma terapia, ainda decoro a casa.