quinta-feira, setembro 28, 2006

Medo

Nunca soube lidar com a perda. De qualquer espécie.
E me assusta, me apavora, me entristece profundamente pensar nesse assunto.
Hoje, senti um medo muito grande.
Minha avó, tão superpoderosa, tão invencível, imbatível, forte e onipotente, demonstrou uma fragilidade que me assustou. Deitada em sua imensa cama, soterrada por dois edredons, tremia de frio, talvez por estar febril ou sei lá porque. Perguntei o que sentia e ela teimava em dizer que era só frio. No entanto, via que tinha dificuldade para respirar. Para acalmá-la e mostrar o quanto me preocupa senti-la naquela situação, passei a esfregar suas costas, afagar seu cabelo e, por fim, abraçá-la.
Talvez por conta do passado de guerras, da vergonha de termos a herança nefasta de Hitler perdida entre os galhos da árvore genealógica, nós alemães dificilmente demonstramos nosso afeto com gestos ternos. E fazer isso, só em momentos extremos, de necessidade de externarmos esse bem-querer abafado pela austeridade germânica é estranho. Faz soar como uma despedida.
E não quero me despedir da minha avó, que guarda ainda hoje a receita de um bolo que lhe fiz, o bolo de Myrna. "Duas xícaras de fofoca, cinco colheres de riso".... e por aí vai.
Isso me soou como um alerta. De que devo cuidar, acarinhar, enfim, colocar pra fora o carinho imenso que sinto por tantas pessoas maravilhosas que me cercam.
E que Deus permita que essa mãezona permaneça por muitos anos por aqui, no plano terreno. Só que agora pra que a gente cuide dela.