segunda-feira, maio 21, 2007

Morte


Quando eu morrer quero flores, muitas flores. De referência gérberas. Também aceito margaridas. Mas não me venham com crisântemos e cravos. Nada de flores funestas.
Queria morrer no front. Fazendo alguma pauta de risco. Num beco escuro falando com bandido. Pulando de asa-delta. Mergulhando em Santa Catarina. Voando num 474 da TAM. Não quero morte boba, fácil. Quero morrer por merecimento. Nada de doenças, também. Quero morrer sem aviso prévio. Uma fatalidade. Riscos da profissão.
E queria combinar com Deus de deixar que veja toda função do enterro. Família consternada, colegas de profissão chocados, ex-casos aos prantos. Atuais, atônitos, sem saber se choram, porque ainda seria cedo para as lágrimas verterem.
Ou melhor nem ver. Meu espírito sofreria muito ao ver o sofrimento daqueles que gosto. Deixa assim.
Dia desses fui a um enterro. Prazeres da profissão...
Menino de 8 anos atropelado por um foragido em fuga.
Chorei. Vi aquela comoção, os pais agarrados ao casaco xadrez do filho... não consegui segurar.
A morte choca quando soa injusta. Mas acredito que sempre venha na hora certa.
Mesmo quando se trata de uma criança inocente, indefesa, com a vida inteira pela frente.
E como explicar o bebê encontrado sob chuva e frio vivo em Estância Velha?
A Vitória Valentine tinha que viver. Por quê? Ah, o tempo dirá. E a mãe vai se arrepender do que fez pelos longos anos de sofrimento que a vida há de reservá-la.
Pensei nisso hoje, depois de assistir a uma série no Sony.
E meu ap, e meu carro, e minhas roupas, perfumes, bijuterias, sapatos?
Acho que a lembrança é ainda mais cruel. Aquele momento em que fazemos algo e aquela pessoa simplesmente vem à mente, sem aviso prévio e sem consolo imediato. E a gente chora como ato-reflexo.
Muito triste isso!
Mas basta estarmos vivos para vislumbrarmos a morte.
Escrevo sobre morte quase todos os dias. E a banalisei. Mortes não me chocam mais.
São um controle populacional necessário, fazem parte da teoria darwiniana.
Em princípio, o cara que morre na vila nem falta fará. Talvez fará para o traficante que usa ele de mula, para o presidente da torcida organizada que manda que bata em membros da torcida adversária, para o colega de gangue de roubo de carros.
A família já sabia que ia dar nisso. E a lei da vida se cumpre. Claro que a mãe vai fazer fiasco no enterro, chorar, espernear, querer ser enterrada junto. Mas ela já sabia, mãe que é, que isso um dia ia acontecer. Que o filho iria interromper o curso natural das coisas e deixar o plano terreno antes que ela. E isso sempre dói.
Cansei de escrever sobre morte. Cansei de consultar cada uma das dezenas de polícias militares da região para saber se tem morte. E ouvir "hoje não tem nada pra ti", como se fosse uma papa-defunto, carniceira, alguém totalmente desprovido de sentimento. E tem quem goste dessa porra de editoria.
Mas há de chegar o dia em que não terei mais que cumprir essa rotina. Só terei matérias agradáveis pra fazer.
Há de chegar o dia. E aí a idéia de morte vai ter outro sentido. Vai ser algo muito mais indesejável.