sexta-feira, abril 27, 2007

A cria orgulho da mamãe

O cenário é bucólico. Daqueles descritos à exaustão nos romances. Tem a praça com a igreja, o imponente prédio da prefeitura, terras férteis, vales verdejantes, as casinhas com varanda, as ruas quase sempre vazias, o rio como limite territorial. Neste ambiente convivem os 12.974 habitantes do município de Feliz, no Vale do Caí. Se são felizes os felizenses? A resposta soa como pleonasmo. E o segredo da felicidade está justamente na simplicidade da vida que levam os moradores, a maioria de descendência alemã. De sorriso desconfiado, os vizinhos moradores do bairro Vale do Hermes Tamires Stroeher, 13 anos, e Mateus Müller, 8 anos, ensaiam uma vez por semana no centro cultural local para o show de talentos em comemoração ao aniversário do município, marcado para o final deste mês. Há pouco mais de 30 dias, tentam tirar das cordas do violão os acordes de Felicidade, de Lupicídio Rodrigues. Mas por que são felizes, se estão distantes de shoppings e do agito das cidades grandes tão apreciado pelos jovens? - Gosto da cidade assim como ela é. Talvez quando eu crescer, pense em ir morar fora para estudar mas, por enquanto, sou feliz aqui – garante Tamires. A sabedoria acumulada pelos 88 anos bem vividos de seu Avelino Mayer lhe permitem definir de onde vem a felicidade do povo local. - São pessoas hospitaleiras, acolhedoras, gente simples e trabalhadora – sentencia, à frente de algumas das principais fontes de sua alegria: os livros em alemão gótico que traduz e as fotos dos filhos e netos. Serelepe, a mulher de seu Avelino, dona Florinda, 76 anos, reluzia durante a entrevista concedida a Zero Hora. Estava faceira por receber em sua casa a equipe de reportagem. - Ah, vocês já vão? Mas sem comer nada? – lamenta dona Florinda, diante da resposta negativa, mas sem por isso deixar de dar um abraço apertado em cada um e desejar tudo de bom. Na prefeitura, todos os servidores carregam no coração o orgulho de morarem na cidade Feliz. Lei municipal estabeleceu o uso obrigatório de uniforme, cuja camisa traz no lado esquerdo os dizeres “Ser Feliz é nosso destino”. Nem o prefeito, César Luiz Assmann, escapa do traje. O município, inclusive, já foi destaque nacional. Ganhou da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1998, o título de cidade de melhor qualidade de vida do país. O clima interiorano e a vida pacata conquistaram até a juíza da comarca local. A porto-alegrense Marisa Gatelli, 52 anos, há 11 veio de mala e cuia aquerenciar-se na Feliz - porque dizer em Feliz soa o oposto do verdadeiro sentido de morar na cidade.