Tricô, crochê e similares

Próximo de onde moro, há negócios que vão mal. Na loja de luminárias e ventiladores de teto, tudo está em promoção, porque depois de décadas de lucro, o dono do estabelecimento vem amargando meses de prejuízo. No armarinho onde comprei a linha para o tapete que minha avó costurou, a situação é ainda mais deprimente. Passei em frente e quase trombei com prateleiras, manequins e outros apetrechos de mostruário à venda. A dona, sentada em uma cadeira de praia no fundo da sala e, como sempre, fazendo crochê. Acho que isso é um sinal de mudança. Tempos atrás, era vergonhoso pra uma moça não saber pregar um botão, costurar o furo em uma meia, fazer ponto de cruz.O crochê, então, de extrema necessidade no preparo do enxoval... hahahaha! Enxoval! Ganhei minha primeira peça de enxoval (que deve ter sido da minha bisavó Tony - é, Tony, que nomezinho, hein?) aos 15 anos. Uma toalha de mesa bordada. Uma enorme de uma toalha! Pra uma mesa de quermesse! E eu, do alto dos meus 15 anos, entre Barbies e primeiros selinhos, aceitei o presente, com um sorriso amarelo e um abraço forçado. Mesmo agora que tenho minha casa, me recuso a ficar com a toalha.
Retomando as habilidades manuais, de fato, é uma tradição que vem se perdendo. Culpa da vida moderna, da revolução sexual, da independência feminina, do anticoncepcional. Quem fica em casa fazendo pulover em tricô pro marido hoje em dia? E quem tem saco pra enfiar linha na agulha, naquele buraquinho minúsculo, e escrever suas iniciais numa toalha de rosto! Dá um tempo! Ok, por uns dias, fiz uns fuxicos. Aquelas florzinhas de tecido bem simpáticas que servem pra fazer um bando de coisas. A sacola com os ditos tá na casa dos meus pais. Ainda não decidi o que fazer com aquele monte de fuxicos.
Já tentei tricô. Na escola, gostava de desenho livre e esculturas em argila. Até pouco tempo, uma carranca que fiz nas aulas de artes estava pendurada na escada da casa da praia. Uma feição triste... de uma época em que era adolescente problemática, depressiva, que achava que a vida se resumia a apaixonar-se e ser, impreterivelmente, correspondida. Pobrezinha!
Acho que vou aproveitar a promoção de luminárias e comprar algumas lá pra casa. Lamento não poder ajudar a moça do armarinho... não costuro, não bordo, não tricoto... o máximo que faço é dar idéias pra minha avó que, em questão de dias, faz tapetes, blusas, trilhos, de um tudo! Minha mãe, tadinha, que passa anos fazendo um blusão. Quando adolescente, em plena fase de ebulição hormonal e crescimento repentino, ela começou um blusão pra mim. Verde. Levou dois invernos. Claro que quando vesti, a cômica constatação: as mangas estavam um palmo antes dos meus punhos! Tive que sugerir que desistisse! E passei a lhe presentear com livros. E hoje, além de uma mãe que tenta fazer seus blusõezinhos de vez em quando, ela é muito mais antenada, interessada em assuntos que antes lhe passavam batidos.
Talvez quando chegar perto dos 50 e estiver meio desligada do mundo, queira aprender a fazer algo pra ocupar as mãos e a cabeça... por enquanto, fico com os presentes sugestivos da minha avó.... louca pra ver a neta mais velha se ajeitar na vida...


3 Comments:
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