Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Medo

Nunca soube lidar com a perda. De qualquer espécie.
E me assusta, me apavora, me entristece profundamente pensar nesse assunto.
Hoje, senti um medo muito grande.
Minha avó, tão superpoderosa, tão invencível, imbatível, forte e onipotente, demonstrou uma fragilidade que me assustou. Deitada em sua imensa cama, soterrada por dois edredons, tremia de frio, talvez por estar febril ou sei lá porque. Perguntei o que sentia e ela teimava em dizer que era só frio. No entanto, via que tinha dificuldade para respirar. Para acalmá-la e mostrar o quanto me preocupa senti-la naquela situação, passei a esfregar suas costas, afagar seu cabelo e, por fim, abraçá-la.
Talvez por conta do passado de guerras, da vergonha de termos a herança nefasta de Hitler perdida entre os galhos da árvore genealógica, nós alemães dificilmente demonstramos nosso afeto com gestos ternos. E fazer isso, só em momentos extremos, de necessidade de externarmos esse bem-querer abafado pela austeridade germânica é estranho. Faz soar como uma despedida.
E não quero me despedir da minha avó, que guarda ainda hoje a receita de um bolo que lhe fiz, o bolo de Myrna. "Duas xícaras de fofoca, cinco colheres de riso".... e por aí vai.
Isso me soou como um alerta. De que devo cuidar, acarinhar, enfim, colocar pra fora o carinho imenso que sinto por tantas pessoas maravilhosas que me cercam.
E que Deus permita que essa mãezona permaneça por muitos anos por aqui, no plano terreno. Só que agora pra que a gente cuide dela.

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Ele sumiu

Além aí viu o cara? Aquele da semana passada, que conheci na semana retrasada e que na mesma noite, há exatos 21 dias, só faltou pedir minha mão em casamento?
Pois é, sumiu. Não fiz nada, juro! Fui devagar, com calma, tateando. Mas mesmo assim ele sumiu. Vai ver que perdeu a paciência em esperar que abrisse aquela brecha, sabe?
Então, isso é outra coisa que não consigo entender. Quando se dá de primeira, se é muito dada, precipitada, indica-se, nas entrelinhas, que só se está a fim de sexo, daquela transa, one night only. Quando não se dá na segunda nem na terceira, creio que o cara perde o interesse e parte pra aquelas que se encaixam no primeiro perfil descrito.
Sei lá, joguei a toalha, cansei de entender homem!
A conduta perfeita pra quem não tá a fim de algo além do momento é não pegar telefone, não saber onde trabalha, nada de detalhes que possam te levar a descobrir o endereço da criatura. Mas não, por educação ou sei lá o quê (encher agenda de celular pra, eventualmente, passar número por número e, acidentalmente, em um sábado pouco promissor, discar pra um), eles pegam o raio do número, dão um toque no teu pra que tu tenha que te segurar pra não ligar e perguntar se ainda vive, se a mulher começou a pegar no pé...
Ahhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!
É sexta-feira e ainda tô matutando essa situação ingrata.
O próximo da fila AGORA, please!!!!!!!!

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

A complicada existência

Queria entender porque a gente complica tanto as coisas. Ok, há aspectos de nossa existência que demandam reflexão, aquele momento "será que devo?", mas, pra maioria das situações, basta aplicar o princípio da praticidade e utilidade. "Vai fazer bem pra mim? Sim? Ok, vamos adiante. Não? Paro por aqui."
Eu sou daquelas criaturas que têm grande dificuldade em esconder sentimentos. Seja de felicidade, insatisfação, ansiedade, tristeza. Tudo transparece. E a tendência é cobrar daqueles que me despertam tais sensações uma satisfação, uma explicação. Mas nem todos levam o coração na garupa. Nem todos têm a noção do que fazem aflorar na gente e do quão angustiante é a incerteza, a indecisão. Se gosto, quero conhecer mais, até encontrar o que não me agrada tanto e descobrir que nem gostava tanto assim. Ou não. Diante da descoberta de que se é ainda melhor, aí, irremediavelmente me deixar apaixonar. Caso nem seja lá essas coisas, volto a procurar alguém de quem gosto de algo ao qual possa me agarrar. A gente funciona assim. Gosta-se um pouquinho, daquela pontinha que nos mostraram. Aí vamos à cata de novos aspectos do ser pra saber se ele é assim, tão "gostável". Mas me frustra imensamente não poder conhecer mais pra chegar às minhas conclusões. Porque teve alguém, em determinado momento da história, que inventou que mulher tem que ficar esperando o movimento masculino, senão eles se assustam e ela passa por oferecida, promíscua, vagabunda. Na boa, se essas convenções sociais não fossem ainda tão fortes, virava cabra macha agora e minha vida seria muito mais prática. Vou pelo meio termo, mas nem sempre o raio do olhar funciona, a dança insinante, a jogada de cabelo, o perfume... É uma safra de homens muito tapados, inseguros, bobos. E nós, mulheres, cada vez mais independentes, poderosas, seguras de si. E eles, coitados, acuados, medrosos... mas a gente precisa desses demônios. É que a vida não é completa sem troca, sem o outro pra contarmos como foi o dia, servir o bolo que não deu certo, a pizza do final de semana que queimou. Conclusão: preciso provar o lesbianismo.

Terça-feira, Setembro 19, 2006

As putas da minha esquina


Será que um dia a gente encontra nossos limites e aprende a não brincar mais com eles? Bah, se for pelo exemplo de alguns, o limite tá sempre à prova. É sempre um pouco além do que se pensava. Sei que o meu é curto, restrito, mas insisto em arrebentá-lo e, conseqüentemente, me arrebentar e me arrepender, e lamentar, e ficar puta comigo mesma, e olhar pra trás e ver quanta merda posso ter feito sem ter a consciência pra me amparar... que ódio! Bem feito pra mim. O psicológico se vingou no físico. Podre. O corpo dói, o estômago não aceita nada, os olhos pesam. Mas é o psicológico que ainda dói mais. Arde.
E como a gente se vinga pelos nossos atos estúpidos? Nos privando de coisas que nos proporcionam prazer como penitência. O desafio é vencer a tentação. Mas são meus princípios que estão em jogo. E meu comprometimento comigo mesma.
Buenas, isso já aconteceu outras vezes e, temo, mas sou sincera, creio que não será a última vez. Contanto que sirva de aprendizado pra vida e fique presente na lembrança, quem sabe a próxima mancada seja em proporções menores...
Mudando de assunto, sexta-feira ouvi um tiro 15 minutos após chegar em casa. Um tiro. Um estalo seco, com eco, e seguido de gritos e correria. Isso na esquina do prédio onde moro. Puta merda! Que susto! Que medo! Sempre me senti protegida contra essas barbaridades. Não sei, acho que porque, graças a Deus, nunca passei por nenhum aperto, sinto como se estivesse imune a isso. Mas foi na esquina da minha casa. Há uns oito anos, foi em frente à minha casa. Tiros, reféns, gritaria. Pacata cidade? Não, faz tempo que perdeu esse título. Toda cidade tem problemas de cidade, por mais cara de interior que tenha. Basta que um bandidão desgraçado resolva entrar nessa cidade e fazer bagunça. Foi-se o sossego. E isso me incomoda. Perturba. Espero que o tiro não tenha atingido ninguém. E que minhas amigas prostitutas tenham saído imunes e que não tenham medo de seguir fazendo ponto na minha esquina. Me sinto protegida com elas por perto. Esses dias me aproximava de casa quando, na esquina do outro lado da rua do meu prédio, vi uma delas se aproximar (melhor, deles. São todos travestis, creio que por preferência da clientela) e, como nenhuma desviou, acabamos levemente trombando. Muito engraçado! Confesso que provoquei o choque, não fiz muita questão de desviar. E ela (e), bem despachada, claro, pediu "desculpa, linda"! Ri muito até abrir a porta do ap. Me senti íntima dela por aquele breve instante. Às vezes queria fazer amizade com elas, saber de suas vidas. Mas aí correria o risco de ter que levá-las pra visitar meu ap...nanananaão.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Sem par


Não sei o que fazer com os brincos que perdi o par.
Sinto tê-los perdido. Inconsolavelmente, eram sempre os meus favoritos.
E não os encontro mais em lojas. Muito menos saberia por onde começar a procurar.
Triste o destino das coisas que vêm em par. Dependem do outro pra, de fato, existirem. Sem o outro, estão fadados ao fundo das gavetas. Mas ao lixo... não consigo. Olho pra aqueles brincos sem par e morro de pena. Lembro-me das vezes que enfeitaram minhas orelhas em festas.
Bem que poderia voltar aquela moda de usar somente um brinco. Teria vááários. Mas ainda assim ficaria com saudades de ter o par pendendo das minhas orelhas.
E o que terá feito com meu brinco a pessoa que o encontrou? Será que deu bola, pisou neles e nem viu? Levou pra casa?
Ah, se pudesse descobrir o paradeiro deles... teria diversos novos (velhos) brincos.

Testamento

Se morresse hoje, morreria feliz.
Refleti muito sobre isso nestes últimos dias.
Impossível não pensar nessa hipórtese diante da morte de alguém próximo, com quem se conviveu e que, até então, mesmo com a notícia da doença, parecia estar distante do reino dos céus. Porque somos jovens, cheios de vida, projetos, vontades, desejos, planos. E pra mim, vendo que, sim, a morte pode estar à espreita sem que nos dê aviso prévio quando da sua chegada, não há nada mais frustrante, triste, desesperador do que morrer sem ter vivido algum projeto de vida. Ou pelo menos estar prestes a realizá-lo, encaminhando-se pra isso.
Explico: há quem não os tenha, mas a maioria dos mortais planeja carreira, família, comprar o sonhado carro, ter um ap pra morar longe da barra da saia protetora da mãe, viajar pro exterior, ter uma turma de amigos insubstituíveis e parceiros pra tornar nossas vidas mais emocionantes. Eu, graças às forças superiores que nos guiam, tenho tudo isso hoje e por esse motivo morreria feliz. Claro que há muito ainda a conquistar, mas acho que até aqui tive uma existência plena. Não, não sou uma boba alegre, do tipo que mesmo quando tudo está uma merda, tenho sempre um sorriso na ponta dos lábios. Pelo contrário, quando fico puta, rosno feito pitbul prestes a se atracar na perna de alguém que arriscar uma aproximação. Mas dois minutos depois, passa. Doida, sei, mas é meio jeito. E, pasmem, sou feliz assim. Soltando as patas, fechando a cara e, segundos depois, largando uma piadinha sem muita graça mas que, pra mim, provocou euforia e mudou meu estado de espírito.
Essas coisas que acontecem ao nosso redor e nos entristecem batem como avisos. Avisos de que temos que viver o presente, fazer as coisas acontecerem hoje e não deixar pra depois, e depois e depois. Isso exige uma boa dose de coragem, de entusiasmo, de vontade. Convenhamos. Não há existência mais infeliz do que a estática.Reclamamos de que as coisas não vão bem, que a vida anda uma merda, mas todos os dias acordamos e cumprimos o mesmo ritual de anos. E vamos trabalhar com aquela má vontade que, se fosse 1% mais forte, não nos permitiria passar o crachá na catraca. Porra! Essa é a nossa vida! Não temos que fazer nada obrigados! Temos o dever de mudar o que não está bem! Se isso vai magoar, decepcionar pessoas, foda-se! Estamos falando da nossa vida, que pode não estar mais ali na próxima esquina que cruzarmos. E daí, aqueles planos de mudar de emprego e, finalmente, fazer o que se gosta, vão pro espaço. Assim como aquela viagem dos sonhos, aquele amor que nunca foi vivido plenamente.
Amigos, vivam plenamente, nem que isso lhes custe caras feias, inimigos, menos dinheiro na conta. Dinheiro, aliás, como já se cansou de falar, não traz felicidade plena. Pode nos levar a pequenas felicidades, proporcionar a efetivação de diversos sonhos, mas nada compensa a felicidade de, simplesmente, sentir-se pleno por estar rodeado de quem se gosta, fazendo o que se gosta, vivendo a vida mundana e bobinha que não precisa de nada mais pra ser melhor. Porque tudo está ali, é só pegar o carro e, 30 minutos depois, se está à beira do Guaíba assistindo àquele fantástico pôr-do-sol. Outros 15 nos levam a um passeio na Redenção, entre as barraquinhas sempre encantadoras do brique. Melhor ainda. Duas quadras da minha casa, ao custo de algumas passadas apressadas, estou no sofá da sala de tevê da casa dos meus pais, diante desse computador, com a tevê a cabo a meu dispor. Ah, e claro, envolta pelo afeto incondicional dos meus pais, muito bem alimentada pelo comidinha caprichada do meu pai e das guloseimas providenciadas pela minha mãe. Ficar longe disso? Hoje, não. Amanhã também. Nada, que eu tenha conhecido até agora, pode suprir essa sensação de ser querida, estar protegida, sentir-se amada.
Então, morreria hoje, sim.
Ah, o título era testamento, mas não tô na pilha de pensar pra quem deixaria minhas coisas hoje.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Pétalas de gérbera

Muito boa a frase!
"Atrás de homem e de ônibus, não se corre. Sempre vem outro. "

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Valeu a espera

Passamos a noite entre olhares. Aqueles de canto de olho, despretenciosos. Como de costume, observava tudo e todos, sem fixar a vista, até porque a noite estava apenas começando. Mas aquele cara de camiseta azul ficava ao redor, sem avançar, mas sempre presente. Caçador solitário, segurar a garrafa de longneck com ar blasé, cantarolando as músicas que lhe despertavam alguma lembrança. Não dançava. Só mexia levemente o corpo, sem fixar porto. Quando pensava que meu olhar 43 (bastante direto, aliás) o encorajaria a chegar junto, puxar conversa, eis que alguém se atravessava na sua frente. Papos vazios, de futuros ou atuais advogados com ambiciosos projetos de se tornarem juízes. Pra fugir do furdunço, me escondia em cantos pouco propícios à caça. E ele voltava a aparecer, mas sempre sem demonstrar muita ambição. A essa altura da festa, já tinha abandonado a idéia de conhecer o dito. Mas, enfim, em um último movimento audacioso, dei-lhe uma boa olhada e subi pra dançar no meio da multidão. E, novamente, meus ouvidos foram alugados. E, mais uma vez, me retirei do campo de batalha e parei no mesanino pra observar a movimentação dos corpos. O improvável, então, aconteceu. Ele se aproximou. E valeu a espera. Conversamos por longo tempo. Sondamos nossos corpos, o formato de nossas bocas e, enfim, nos beijamos. E valeu a espera, valeu cada minuto de expectativa.
Buenas, mas e o dia seguinte? Os dias seguintes... contendo a afobação, deixei a vontade dele aparecer. Eis que apareceu. Há menos de uma semana de nos conhecermos, almoçamos, andamos de mãos dadas, saímos...
Mas o coração, meu coração... está em compasso de espera. Com medo, muito medo, apertado e pouco disposto a grandes paixões. Fiquemos, então, com as médias e, quem sabe, atinjamos o patamar de grande paixão...

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

O sol voltou a brilhar



E o sol voltou a brilhar.
No fundo do túnel em que pensei estar, imersa em minhas lembranças, mágoas e saudades, vislumbrei a luz, um sopro de vida no nefasto mundo que criara pra mim.
Vejamos, agora, a intensidade dessa luz e sua duração, que, espero, se prolongue para até onde sua agradável existência permitir.
Enquanto lá fora o frio castiga, a neve chega a lugares até então improváveis, meu coração arde de ansiedade. E o segredo da felicidade é saber lidar com ela, sem afobação, sem falsa expectativa. Deus permita que tudo aconteça a seu tempo, sem atropelos, sem grandes frustrações.