Quarta-feira, Julho 29, 2009

Tempo

Não há vivência que prepare para o sofrimento. Não há remédio anti-choro, anti-vazio, anti-tristeza. Mas tem uma pilula gigante de engolir, e que demora bastante pra funcionar às vezes: tempo.
Não aprendi a lidar muito bem com esse negócio. Sei que passa rápido quando a gente não quer que passe. E que leva um infinito quando a gente quer que voe.
Me falta paciência para esperar que ele aja e, confesso, às vezes eu perco as estribeiras com o dito.
Pôxa, quando é pra acelerar a proliferação de cabelos brancos na minha peruca, é rapidinho. E também pra me deixar cegueta. Putz, tempo inglório. Assim é sacanagem.
Agora, quando é pra ajudar a esquecer, dar uma mão pra agilizar a chegada dos fins de semana e tornar as noites de sexta e sábado mais compridas, nem pensar!
Acho que eu vendo uma imagem fake por demais de mim.
Eu amadureci rapidinho (talvez tenha nascido velha, até). Mulheres amadurecem mais rápido, isso é fato.
Mas pra muita coisa eu ainda sou principiante.
Emoções, por exemplo. Me ensinaram a contê-las, mas eu nunca soube muito bem. Eu tento, me esforço bastante, mas sempre explodo em choro, tristeza, riso, alegria. Sou de extremos. Não sei ser mais ou menos. O meia-boca me entristece, decepciona.
Tá vendo, me falta a serenidade da maturidade.
Tempo!

Vai mais uma do Nei, a quem recorro pra me ajudar a passar o tempo
Romance
Nei Lisboa

Todas as bobagens que eu já disse
Dariam pra encher um caminhão
Mesmo assim encontro no caminho
Milhares mais otários do que eu
Por isso meu amor
Não leve tão a sério
Nem o que eu digo nem o que eu deixo de esconder
Não vai ter graça o dia
Em que bater na porta
E você não abrir pra responder
Todas as pessoas que eu conheço
Cabem bem juntinhas na palma da mão
Pra você guardei um universo
Quando falta espaço eu faço verso e durmo na canção
Por isso meu amor não pense que é brinquedo
Eu tenho medo e morro de paixão
Não vai ter graça o dia
Em que eu abrir a porta
E a tua mão vazia disser não
Por isso meu amor
Não leve tão a sério
Se eu morro de medo
Brinco de paixão
Não vai ter graça o dia
Em que eu te ver na porta
E não souber se entro
Ou faço uma canção...

Domingo, Julho 26, 2009

A novela da vida real

Enquanto o prensado no Bigode devorado na madrugada me causa náuseas, minha cabeça dói e minhas pernas continuam meio dormentes, eu preciso escrever.
Podia começar assim: pessoas cometem erros. Erros que envolvem outras pessoas. Pessoas sofrem com erros. E erros fazem parte da vida. Agora, o cúmulo é remoer os erros. Erros vão e vêm, é a lógica da vida e isso nunca vai mudar. Eu fui o erro de alguém. E errei ao aceitar ser esse erro. Aliás, errei duplamente querendo fazer do erro um acerto.
A gente para e pensa: mas quem começou tudo isso? Quem é o culpado? Quem foi o filho da puta que atirou a esmo a sementinha, sem se dar conta de que ela podia germinar, mesmo em terreno nada adequado. Quem? Quem? Eu, você, Deus, o diabo.
Não importa. Aconteceu. Fato.
E eu cansei de escrever sobre isso.
No final dessa novela mexicana de quinta, a vilã terminou sozinha, amargurada e ainda mais malvada aos olhos dos telespectadores. E o mocinho e a mocinha, esses, obviamente, terão o final feliz que merecem. Bom pra eles!

Domingo, Julho 19, 2009

Findi em família

Vi parte do domingo passar na sala do apartamento dos meus pais.
Fazia muito tempo que isso não acontecia.
Almoçamos juntos e me joguei no sofá para jiboiar.
Assisti a Lendas da Paixão (pela oitava vez na vida, talvez) e mais alguns pedaços de outros filmes e séries.
Fragmentos que tento juntar pra reaprender a conviver com eles mais intensamente.
Mas de pronto confesso: eu não sei mais estar em família por muito tempo. Digo isso porque desaprendi a interagir, a fazer comentários vazios pra preencher o silêncio aberto pela intimidade perdida.
Eu sou silenciosa, confesso. Talvez fale mais com as paredes e espelhos do meu apartamento.
E meu silêncio incomoda minha mãe, incomoda meu pai. Os leva a pensar que estou triste, chateada.
Não é bem esse o sentimento. Pelo menos não o dominante, entre tantos que passeiam pelo meu cérebro em momentos de ócio nada produtivo.
O final de semana foi de vazio. Lacunas imensas a preencher.
Mas, muito providencialmente, minha dinda surgiu para ocupar alguns metros quadrados do meu ap e da minha folga dupla sem grandes planos.
Como sempre, foi ótimo. Pena passar tão rápido! Ela é, sem sombra de dúvida, a mais lúcida de todas as mulheres da família. Juntas, ninguém pode com a gente!
Mas eu ainda tenho muito chão pra percorrer até alcançar o nível de sabedoria dela!
Tamo no caminho!

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Dia de celebridade

Queria entender porque lembro tão pouco da minha infância. Já perguntei pra minha dinda se passei por alguma situação traumática que pudesse ter bloqueado as lembranças do tempo em que ainda falava Obeita porque não conseguia pronunciar o R. Ou um pouco mais adiante, quando minha mãe foi correndo pro hospital dar à luz meu irmão. Desse episódio eu tenho uma vaga lembrança. A imagem é da minha mãe saindo pela porta do apartamento meio magra, quase sem barriga, e voltando pra casa com um ser muito parecido com minha boneca nos braços. Depois disso, só me lembro das duas dedeira de Nescau que eu tomava antes de dormir (porque ele não gostava muito e me cedia cordialmente a sua), das brigas homéricas, da luz do corredor acesa à noite pro guri não morrer de medo do escuro.
Buenas, tudo isso pra dizer que eu voltei no tempo ontem. Estudei no mesmo colégio a vida toda. Sempre fui uma aluna mais ou menos, tirando as matérias humanas. Nessas, volta e meia eu me puxava e tirava uns 10. Pois nessa segunda eu percorri os mesmos corredores onde eu parava para fazer fila pra entrar na sala de aula (no fim da fila, aliás, porque o jerivá aqui sempre foi mastodonte). Retornei ao colégio para ser metralhada por perguntas de 90 doces alunos de 3.ª série. Foi muito louco. Nunca fiz isso na vida, embora sempre tenha sonhado com essa experiência. Afinal, eu era a timidez em pessoa na escola. E agora, depois de muito levar na cabeça, acho que superei a vergonha de falar em público. Pelo menos para um público menor do que eu (hehehe).
Posso dizer que foi muito legal. Passei duas horas explicando como é ser jornalista. Duas horas falando sobre algo que julgo saber de cor e salteado. Jurava saber, né. Porque criança sempre consegue desarmar a gente.
Foi muito legal encontrar no meio daqueles rostinhos curiosos, pequenos com pinta de jornalistas. Adultos mirins comentando notícias com senso crítico, cobrando informações que não leram no jornal, mas que ouviram no rádio, viram na rua. E a tia aqui ficou meio sem jeito, claro.
No fim da coisa toda, ficou o carinho dos alunos mais fofos que vieram me dar beijos, abraços e fazer perguntas em particular.
E ficou a sensação de que eu sou alguém, afinal de contas.
Por duas horas, eu fui celebridade para aqueles pequenos fãs.

Domingo, Julho 12, 2009

Em novo ciclo

Acredito que nossas vidas funcionam em ciclos evolutivos. Acontecimentos nos levam a viver experiências que nos tiram o chão. Aí vem a reação, que pode ser de choque, de frustração, de desespero, mas que sempre resulta em crescimento e aprendizado.
Em se tratando de vida pessoal, eu sempre me senti uma fraca. Confesso ter dificuldade para tomar decisões que possam me sacar fora da zona de conforto. Morro de medo, pra ser mais exata. Se no profissional eu mato no peito, no pessoal eu chuto pra longe.
Mas é preciso encarar o monstro de frente. Se não tá bom, porque disperdiçar o hoje e talvez o amanhã vivendo mais ou menos? Ontem, no meio de uma experiência antropológica intensa e desafiadora, ouvi da boca de um cara uma frase muito verdadeira: "A gente tem que se sentir feliz e completo consigo mesmo. Dá pra não ser sozinho estando sozinho." Tá bem!
Desde sempre eu nutri um naco de solidão considerável dentro do peito. Vem de antes da adolescência. Vem duma maturidade precoce da época em que ainda tinha melenas naturalmente loiras. E essa maturidade juvenil teve seu auge no dia em que eu fitei uma tesoura com ímpetos de cravá-la no peito. Mas calma, o instinto suicida passou. Seria muito cruel com aqueles que me consideram. E o motivo torpe era por demais tosco. Há causas muito mais nobres que levam pessoas a dar cabo de suas vidas.
Mas volta e meia eu choro movida por um pensamento egoísta de abandono, de vazio. Eu choro de raiva dos outros e de mim mesma. Eu esbravejo como criança que ficou sem presente no Natal, como adolescente que passou o aniversário sem que ninguém lembrasse da data. É quando eu deixo falar aquela criança que eu calei na infância. É meu lado infantil, de carência de mimo e atenção, se manifestando tardiamente.
Mas já não dá mais pra pedir colo. Passei da idade. A infância ficou pra trás, assim como a adolescência e tantas outras fases que preparam para a idade adulta.
Eu me julgava muito madura, quase passada de mais. Mas vivi sintuações que me mostraram ter ainda muito o que aprender.
Agora tentei puxar na memória alguma coisa que me levasse de volta à infância. Lembrei que estou fazendo exatamente o que fazia quando me sentia confusa e perdida. Eu escrevia. Eu escrevo para clarear ideias, visualizar saídas, encontrar respostas. Pois elas estão bem diante de mim. Melhor, bem dentro de mim.
Se às vezes eu choro feito criança, é porque preciso desabafar, preciso deixar sair. Pra depois lavar o rosto, passar a maquiagem e encarar o mundo com toda a segurança que a carapuça me proporciona.
Experimentei situações de perda fortes nos últimos dias, mas também encontrei algo de muito valioso: me encontrei. Foi como acordar de um sono profundo, como despertar para mim e enxergar uma mulher forte e plena, que pode sim se bastar.
Não há atitude mais egoísta do que procurar no outro alguém para preencher vazios desconhecidos.
Os vazios preencho eu. E quando eles estiverem lotados de serenidade, paz e amor próprio, aí sim eu vou querer dividir.
Um ciclo de vazio se fecha, para dar espaço a outro transbordante de segurança e auto-conhecimento.
Hoje eu sei que vou amar de verdade quando me amar por completo.
Um dia eu chego lá e esse dia não tardará.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Lost in translation

A cabeça e o coração entraram em colapso. Não sei bem se foi um colapso, acho que foi uma conjunção astral, misturada a um daqueles momentos, "putz, como eu não tinha me dado conta disso ainda!"
Eu me esforço pra fingir, mas sou transparente. Se não tá bom, amarro os burros. Se tá ótimo, falo feito matraca trica. Problema é que esses dois estados podem acontecer muito próximo um do outro. E aí em posso parecer doida aos olhos de quem não me conhece direito.
O fato é que a aritmética da questão já apresentou seu resultado. Mas eu não curto lógica, não concordo que dois mais dois sejam quatro. Existem variantes, existem fatores externos e internos que influenciam no resultado, oras!
Ok, isso se chama auto-sabotagem. Isso é ver a coisa muito clara e óbvia na tua frente e negar o que se apresenta.
Não dá mais, eu sei.
Não vai mudar, eu sei.
Mas lá no fundinho eu penso diferente.
Lá no fundinho eu sou feliz com o resultado torto da equação.
Mas lá no fundinho é muito pouco, é muito mais ou menos, é muito distante.
Tem que trazer à tona, tem que ser bom na superfície.
Não precisa ser maremoto. Mas marolinha também não dá!
Quero onda pra fazer tubo, surfar legal, na crista. Quero o mar de Bombas, aquele mar meio instável, com altas ondas numa ponta e calmaria na outra. O mar de Bombinhas não rola.