segunda-feira, outubro 30, 2006

A feira dos sentidos

O cheiro de pipoca doce convida o olfato a catar os pipoqueiros entre as bancas. Os imponentes jacarandás jogam suas flores roxas sobre os passantes, como num gesto de boas-vindas aos famintos pelas letras. É a Feira do Livro de Porto Alegre que começa, é a minha sede por livros que desperta mais uma vez e se encantam com a opulência do evento literário. Me perco entre as barraquinhas feito criança em parque de diversões. Quero me jogar nos balaios de saldos, deixar meus dedos correrem pelas orelhas e prefácios, esquecer que a grana é curta e a ânsia pelas palavras desmedida.
Não busco nada em especial, exceto o livro da colega de profissão Eliane Brum, A Vida que Ninguém Vê. Tenho em mim um desejo latente semelhante ao dela. Sonho em levar às páginas do jornal o trivial, mas com uma leitura particular, expontânea, latente, que transpareça a comoção que me despertou. O oficialesco da rotina jornalística cansa. O que todos os dias pede para ser contado e permanece no anonimato porque não tem, à primeira vista, cara de notícia, é um exercício para o olhar sempre curioso de uma jornalista que um dia espera salvar o mundo.
Voltando à feira, compro Eliane e Capote. Mas não tiro os olhos dos saldos. Aquele cheiro de mofo, as páginas amareladas, algumas buscando a vida fora do livro, são um convite a quem quer boa leitura por poucos reais. E encontro. Assis Brasil e Gay Talese. Ok, saciei meu impulso consumista. Agora é hora de passear com as sacolas a cansar as mãos, os braços, o corpo. Descubro que a feira expandiu-se para cenários ainda mais encantadores. Está no Cais do Porto. Não bastasse a paisagem dos jacarandás, dos prédios históricos, daquela gente bonita a circular pelos corredores, agora é o Guaíba que me convida a um passeio pelas suas margens.
Queria voltar a ser criança ou, então, estar acompanhada de uma, para me esbaldar com os coloridos livros infantis dispostos à beira do cais. É indescritível a minha sensação de satisfação ao ver uma criança se debruçar sobre um livro e, insistentemente, pedir para a mãe comprá-lo. Sinto uma ponta de inveja e esperança, o peito aperta e se enche com a graciosidade do pequeno leitor envolvido pelas histórias que um dia embalaram meus sonhos de criança e me conduziram ao jornalismo. A Feira do Livro de Porto Alegre me faz sentir cosmopolita, mas com jeito de guria do interior que chega à capital com os olhos arregalados, o queixo caído, um retrato do que a cidade e a cultura que dela brota despertam em mim. E nessa hora quero deixar de ser hamburguense para ser porto-alegrense.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Cabelos no chão....

Detesto cabelo no chão, no ralo do box, no travesseiro. Vai ver é de tanto que minha mãe reclamava que tinha cabelo por toda casa na época em que ainda morava com eles. Pois na minha casa, é avistar algo com queratina e um certo brilho no chão pra me colocar de quadro e catar os ditos.
Também detesto levar bolo... ah, espere para ver meu beiço crescer se me der cano. Mas não espere pelo troco, porque jamais seria na mesma moeda.
Perfumes doces, rançosos, grudentos e vulgares, fora! Estejam no pescoço de homens ou mulheres.
Pimenta... risque isso da sua lista de compras caso queira cozinhar pra mim. passaria o dia tomando água, a abanar a boca, na tentativa de me livrar da sensação de que um formigueiro resolveu fazer seu ninho na minha traquéia.
A inércia do ser humano também me irrita profundamente. Trabalho em equipe desde sempre e não admito incompetência por preguiça, falta de vontade... alguém precisa mandar, e alguém precisa obedecer. E se alguém achou que tinha competência pra mandar, fui obrigada a acatar. Portanto, colabore. Se não gostou, conversemos. Tudo se acerta na base da conversa. Agora, falta de talento é outra história. Assim como falta de vocação... como diz meu chefe, se você não está feliz com o jornalismo, vá ser bancário!
Festa ruim... ah, isso é frustrante. E por festa ruim subentende-se música ruim e público sonso, chato, imóvel, pouco empolgante. E se a companhia quiser ir embora bem naquela hora em que as coisas estão se ajeitando... putz! Pior é agüentar a companhia bêbada... putz ao cubo!
Falando em bebedeira, odeio sofrer de amnésia alcoólica. Reconstruir com fragmentos dispersos o que aconteceu noite passada é degradante! "Será que fui fiasquenta, enrolei a língua, dispensei um gatinho, xinguei alguém? E a conta, quem pagou???"

segunda-feira, outubro 09, 2006

Quero meu prazer

Meu corpo é corpo estranho para mim.
Estou em constante processo de descobrimento.
Me desconheço e lamento às vezes não entender minha anatomia.
Há muito que questiono se nasci para o prazer.
O processo de entendimento do sexo foi demorado, difícil, desacreditado, violento. Tudo o que tinha conotação sexual para mim, até por volta dos meus 13 anos, era nojento, vulgar, porco, um insulto ao corpo, à alma.
Ouvia os ruídos produzidos pelos meus pais no quarto ao lado com lágrimas nos olhos. Colava meu ouvido na porta e tentava entender porque tanto gritavam, gemiam. E depois saíam, um a um, do quarto, semi-nus. E eu assistia a tudo assustada, sem entender direito, desentendendo e descontruindo o contexto do sexo.
Diante de meus olhos, meus progenitores, involuntariamente, me insultavam. E na minha ingenuidade degradada buscava inspiração para escrever-lhes cartinhas intimidadoras. O resultado eram olhares acanhados à mesa. Eles não sabiam o que fazer. E muito menos eu.
Deveria ter superado essa experiência, virado a página. Mas não supero, remoo como se fossem meus pais os culpados pelo preconceito que tenho com relação a meu próprio prazer. Pelo grito de dor engolido a seco, pela vontade de fugir quando sinto meu corpo ser invadido.
Embora tenha vivivo momentos que considero próximos da plenitude do prazer, não sei se já o atingi por completo. E receio que isso acontecerá quando o amor for tão intenso que sairá da minha cabeça para tomar meu corpo, meus sentidos, minha razão.