segunda-feira, outubro 09, 2006

Quero meu prazer

Meu corpo é corpo estranho para mim.
Estou em constante processo de descobrimento.
Me desconheço e lamento às vezes não entender minha anatomia.
Há muito que questiono se nasci para o prazer.
O processo de entendimento do sexo foi demorado, difícil, desacreditado, violento. Tudo o que tinha conotação sexual para mim, até por volta dos meus 13 anos, era nojento, vulgar, porco, um insulto ao corpo, à alma.
Ouvia os ruídos produzidos pelos meus pais no quarto ao lado com lágrimas nos olhos. Colava meu ouvido na porta e tentava entender porque tanto gritavam, gemiam. E depois saíam, um a um, do quarto, semi-nus. E eu assistia a tudo assustada, sem entender direito, desentendendo e descontruindo o contexto do sexo.
Diante de meus olhos, meus progenitores, involuntariamente, me insultavam. E na minha ingenuidade degradada buscava inspiração para escrever-lhes cartinhas intimidadoras. O resultado eram olhares acanhados à mesa. Eles não sabiam o que fazer. E muito menos eu.
Deveria ter superado essa experiência, virado a página. Mas não supero, remoo como se fossem meus pais os culpados pelo preconceito que tenho com relação a meu próprio prazer. Pelo grito de dor engolido a seco, pela vontade de fugir quando sinto meu corpo ser invadido.
Embora tenha vivivo momentos que considero próximos da plenitude do prazer, não sei se já o atingi por completo. E receio que isso acontecerá quando o amor for tão intenso que sairá da minha cabeça para tomar meu corpo, meus sentidos, minha razão.