Meninos e mulheres
Há um rito de passagem muito bem estabelecido, que separa a menina da mulher. Nós sangramos. E, a partir daí, brincar de boneca é contrasenso, chorar por birra é despautério. É preciso abandonar as chiquinhas, assumir as espinhas, comprar o absorvente na farmácia (morrendo de vergonha de olhar pra cara do atendente, com se você fosse a única a usar esses troços!). Os peitos crescem, aparecem as famigeradas celulites, os pêlos também dão as caras. Muito chorei de cólica, deitada no sofá da casa da praia, louca pra ir pescar lambari, mas p. da cara por ter de lidar com esses dilemas femininos.
E os meninos, quando passam a ser homens? Seria quando aparecem os primeiros pêlos na cara, nas partes íntimas, no peito? Ou quando a voz esganiça?
Não voto em nenhum nesses acontecimentos fisiológicos. Não tem pêlo nem voz descompassada que os obrigue a encarar a maturidade de frente.
Também pergunto quais os objetivos, as metas, os propósitos de vida de homens e mulheres?
Para aquelas que passaram pelo rito da menima mulher e captaram a profundidade do endométrio vindo abaixo, queremos a independência. Até os 16, dividi quarto com meu mano. Conquistado o quarto individual, não havia cristo que irrompesse meu mausoléu. Meu quarto era meu domínio. E por nove anos ele me serviu, tinha o tamanho das minhas pretensões territoriais. Aí veio o primeiro namorado. Era um quarto, de novo, pra duas pessoas. Aí veio a namorada do meu irmão. Era um apartamento para seis pessoas.
Mas eu me perdi no raciocínio... o que as mulheres querem, afinal? Pergunta complexa, porque queremos nos estabelecer profissionalmente e também cultivamos um desejo ancestral de constituir família. Até os 24 anos, esse negócio "cavernesco" da multiplicação não me pertencia. Mas aí a gente conhece sujeitos que parecem ser espécies dignas de procriação, e esse instinto aflora. Buenas, mas eu tratei de calar.
Mas o que as mulheres querem, oras? A gente quer matar a pau no trabalho. Se nossas mães trabalharam para ajudar no nosso sustento, nós queremos mais: queremos ser fodonas. Queremos ser melhores do que os homens. A lógica da concorrência de mercado nos cobra isso. E homens que nos veem como pares de pernas bem torneadas acompanhados de um acessório chamado cérebro nos instigam a provar o contrário. E, mais do que ganhar cabelos brancos antes dos 30 e colecionar rugas de preocupação de tanto se esgualepar trabalhando, a gente quer ganhar dinheiro suficiente pra comprar nossos balangandãs, creminhos, roupinhas, eventualmente comprar um carrinho que nos permita facilitar a locomoção.
E o principal de tudo isso: sair do quarto da casa dos pais. Porque a cama de solteiro, o som e a prateleira de livros não nos proporcionam mais a sensação de liberdade e independência de antes. A gente quer ter quatro paredes mais amplas a nos rodear! Pra aprender a se virar sozinhas, não precisar mais dar satisfações pros pais, ir e vir ao bel prazer. E, claro, arcar com as contas, a limpeza, a manutenção do "quarto grande".
E o que mais? Pois é... a gente já provou que é tão capaz quanto os homens, já comprou o carrinho dos sonhos e tem um apê todinho pra chamar de seu. O que tá faltando? De repente um ser pra dividir todas essas conquistas, com a vantagem de que ele não vai precisar ajudar a lutar por elas. Mas eu entendo, é complicado para os seres do sexo masculino entrar nesse universo. São muitos anos de independência, de vida dedicada ao trabalho. Como não se intimidar em encarar um pacote completo desses? Só sendo muito seguro de si.
Mas o que, então, os homens querem da vida?
Olha, tem aqueles que, a exemplo de seus pais, querem se ralar no trabalho, pra ganhar dinheiro suficiente pra começar uma família como aquela que têm por referência. Mas, antes disso, eles querem juntar dinheiro suficiente pra comprar o sonho de consumo de 100 entre 100 homo erectus: o possante! Quer dizer, não necessariamente comprar. Porque tem pai que dá aquela força e presenteia o filhão com o sonho de consumo.
E depois? Ah, eles querem se achar no mercado de trabalho. E se esforçam pra ganhar mais do que as meninas. Ralam mesmo. Mas eles também precisam de independência, como as gurias? Olha, acho que não. Pelo menos até estarem faturando tanto que fica até vergonhoso continuar dormindo na cama de solteiro que a mãe arruma todos os dias. Aliás, não sei se é a ânsia por liberdade que faz um homem voar solo. Acho que é a angústia dos pais em ter um barbado semi-independente em casa que os motiva a deixar o ninho.
Uma breve reflexão: pense numa mulher de 30 e muitos, 4o e muitos, morando com os progenitores. "Solteirona, pobrezinha. Vai ficar em casa o resto da vida pra cuidar dos pais na velhice". Agora pense num homem de 30 e muitos, 40 e muitos, morando com papai e mamãe. "Meu filhinho tá aí, tadinho. Não encontrou mulher tão boa quanto eu pra cuidar dele. Que fique em casa, então!" Cruel, hein?
Mas o que eles querem, afinal? Um videogame pra chamar de seu? Viajar pelo mundo? Curtir a vida adoidados?
Francamente, não sei.
E os meninos, quando passam a ser homens? Seria quando aparecem os primeiros pêlos na cara, nas partes íntimas, no peito? Ou quando a voz esganiça?
Não voto em nenhum nesses acontecimentos fisiológicos. Não tem pêlo nem voz descompassada que os obrigue a encarar a maturidade de frente.
Também pergunto quais os objetivos, as metas, os propósitos de vida de homens e mulheres?
Para aquelas que passaram pelo rito da menima mulher e captaram a profundidade do endométrio vindo abaixo, queremos a independência. Até os 16, dividi quarto com meu mano. Conquistado o quarto individual, não havia cristo que irrompesse meu mausoléu. Meu quarto era meu domínio. E por nove anos ele me serviu, tinha o tamanho das minhas pretensões territoriais. Aí veio o primeiro namorado. Era um quarto, de novo, pra duas pessoas. Aí veio a namorada do meu irmão. Era um apartamento para seis pessoas.
Mas eu me perdi no raciocínio... o que as mulheres querem, afinal? Pergunta complexa, porque queremos nos estabelecer profissionalmente e também cultivamos um desejo ancestral de constituir família. Até os 24 anos, esse negócio "cavernesco" da multiplicação não me pertencia. Mas aí a gente conhece sujeitos que parecem ser espécies dignas de procriação, e esse instinto aflora. Buenas, mas eu tratei de calar.
Mas o que as mulheres querem, oras? A gente quer matar a pau no trabalho. Se nossas mães trabalharam para ajudar no nosso sustento, nós queremos mais: queremos ser fodonas. Queremos ser melhores do que os homens. A lógica da concorrência de mercado nos cobra isso. E homens que nos veem como pares de pernas bem torneadas acompanhados de um acessório chamado cérebro nos instigam a provar o contrário. E, mais do que ganhar cabelos brancos antes dos 30 e colecionar rugas de preocupação de tanto se esgualepar trabalhando, a gente quer ganhar dinheiro suficiente pra comprar nossos balangandãs, creminhos, roupinhas, eventualmente comprar um carrinho que nos permita facilitar a locomoção.
E o principal de tudo isso: sair do quarto da casa dos pais. Porque a cama de solteiro, o som e a prateleira de livros não nos proporcionam mais a sensação de liberdade e independência de antes. A gente quer ter quatro paredes mais amplas a nos rodear! Pra aprender a se virar sozinhas, não precisar mais dar satisfações pros pais, ir e vir ao bel prazer. E, claro, arcar com as contas, a limpeza, a manutenção do "quarto grande".
E o que mais? Pois é... a gente já provou que é tão capaz quanto os homens, já comprou o carrinho dos sonhos e tem um apê todinho pra chamar de seu. O que tá faltando? De repente um ser pra dividir todas essas conquistas, com a vantagem de que ele não vai precisar ajudar a lutar por elas. Mas eu entendo, é complicado para os seres do sexo masculino entrar nesse universo. São muitos anos de independência, de vida dedicada ao trabalho. Como não se intimidar em encarar um pacote completo desses? Só sendo muito seguro de si.
Mas o que, então, os homens querem da vida?
Olha, tem aqueles que, a exemplo de seus pais, querem se ralar no trabalho, pra ganhar dinheiro suficiente pra começar uma família como aquela que têm por referência. Mas, antes disso, eles querem juntar dinheiro suficiente pra comprar o sonho de consumo de 100 entre 100 homo erectus: o possante! Quer dizer, não necessariamente comprar. Porque tem pai que dá aquela força e presenteia o filhão com o sonho de consumo.
E depois? Ah, eles querem se achar no mercado de trabalho. E se esforçam pra ganhar mais do que as meninas. Ralam mesmo. Mas eles também precisam de independência, como as gurias? Olha, acho que não. Pelo menos até estarem faturando tanto que fica até vergonhoso continuar dormindo na cama de solteiro que a mãe arruma todos os dias. Aliás, não sei se é a ânsia por liberdade que faz um homem voar solo. Acho que é a angústia dos pais em ter um barbado semi-independente em casa que os motiva a deixar o ninho.
Uma breve reflexão: pense numa mulher de 30 e muitos, 4o e muitos, morando com os progenitores. "Solteirona, pobrezinha. Vai ficar em casa o resto da vida pra cuidar dos pais na velhice". Agora pense num homem de 30 e muitos, 40 e muitos, morando com papai e mamãe. "Meu filhinho tá aí, tadinho. Não encontrou mulher tão boa quanto eu pra cuidar dele. Que fique em casa, então!" Cruel, hein?
Mas o que eles querem, afinal? Um videogame pra chamar de seu? Viajar pelo mundo? Curtir a vida adoidados?
Francamente, não sei.

