quarta-feira, abril 08, 2009

Era uma vez

Era uma vez uma menina que tinha medo de se ver na tevê, adorava pescar sozinha na beira do rio, jogar taco com os vizinhos da praia, bater bafo com os guris no colégio, andar de bicicleta por caminhos inexplorados, tomar banho de mar ou de lagoa até os dedos murcharem, mergulhar muito, até o ouvido latejar, comer negrinho de panela, ouvir a avó ler fábulas do Esopo, escrever bilhetinhos fofos, redações para os colegas, ficar com a vassoura nas reuniões dançantes.
Era uma vez uma menina que cantarolava músicas em imbromation quando viajava de carro com os pais, detestava estar menstruada e saber que toda a vizinhança sabia disso, colocar as redes na lagoa em fim de tarde e buscá-las atrolhadas de peixes na manhã do dia seguinte, jogar vôlei mesmo sabendo que não dava pra coisa, brincar de esconde-esconde e cabra-cega só pra beijar o vizinho da praia, meu primeiro amor, ouvir o pai dele me chamar de norinha e repetir o bordão "o cara pode não prestar, mas o sogrão...", invadir o prédio do engenho e roubar saquinhos de arroz vazios, beijar o mesmo primeiro amor embaixo d´água pra que nossas mães não vissem.
Tanta coisa. Lembranças boas, tempo de esperança.
Olho no espelho e vejo um pouco dessa guria que cantava imbromation desde a tenra idade e que até hoje não perdeu a mania. Não jogo mais taco, já não bato bafo e meu primeiro amor virou bagulho e maconheiro. É... tempo malvado!
Ainda amo ficar submersa, comer negrinho de panela, e o pai do cara ainda me chama de norinha. O prédio do engenho virou ruína e andar de bicicleta, só se não tiver vento. Pescar perdeu a graça porque não tem mais lambari como antigamente e meu pai aposentou as redes. Hoje eu já sei disfarçar quando estou menstruada e, às vezes, deixo bilhetinhos fofos.
Olhando assim, até não mudei muito. Ah, não choro mais quando me olho na tevê, apenas lamento.