sábado, abril 04, 2009

Em memória a nós

Quando você sorri, a boca se abre feito criança em êxtase. Como se fosse engolir toda a alegria do ambiente. É um riso gostoso, cheio. Cheio como seus lábios carnudos, que beijam macio. E eu sempre quero mais e mais e mais. Como resistir a dois pedaços do céu a tocar sua boca, roubar o ar. E a língua sempre na medida. Ronda minha boca e eu quero roubá-la, tomá-la para mim.
Quando você dorme é como se anjos guardassem seu sono. Não há sons, apenas o ar entrando e saindo dos seus pulmões. E a paz mais profunda brotando de seus poros. É quando a mais sublime serenidade toma conta de você, e me sinto pequena, menor, diante da grandeza do sono dos justos, dos puros de coração. Não consegui te observar muito enquanto dormia. Assim como eu, você também tem sono leve. A culpa, ela, a mesma que nos apartou, não permitia sequer que dormisse profundamente.
Há muito o que lembrar, mas as lembraças ainda doem, latejam como feridas abertas de um tombo no asfalto. Não, não, não deixe a culpa voltar. Mantenha ela à distância. A culpa cristã que nos acompanha desde o nascimento é mãe do sofrimento, da frustração, do arrependimento. Eu não me arrependo de beijar sua boca e entregar meu coração nas mãos de um anjo tão encantador, e puro, e inocente. Ele esteve sob a tutela do melhor dos guardiões.
Indescritível a sensação de paz e plenitude de deitar no gramado e fitar a copa das árvores, sentir o sabor do vento ao seu lado. Minutos preciosos de vida simples, de prazeres que há tempos não vivia. Aprendi isso com você. E nunca mais vou esquecer ou deixar de fazer, embora pareça sem sentido repetir isso sem você. Mas eu o farei. Em memória a nós.