Família
Fez uma semana, ontem.
Ainda bem que essas coisas se resolvem com o tempo.
Assisti a uma briga em família. Minha mãe e minha avó, mãe do meu pai. Foi surreal. Todos à mesa se calaram. Ficou apenas o som do choro e dos gritos delas. Eu, pra variar, chorei copiosamente. Não queria acreditar que estava assistindo àquilo.
Mas todos sempre souberam que elas viviam às rusgas. Mas a antipatia sempre foi velada. Quando minha mãe dirigia a palavra a ela, sempre sentia um frio na barriga. A dona Myrna teimava em interpretar os ditos da mãe como ofensas à sua ilustre pessoa.
Nervos à flor da pele. E não há ser, por mais germânico, hitleriano, estóico, senhor de si, frio e calculista que seja, que um dia não estoure. E quando o estouro acontece depois de aaannoooosss de ressentimentos acumulados, a coisa tende a ser feia.
E foi. Não sei se elas voltarão a se falar.
O mais doido de tudo é que ninguém sabia a quem amparar. Meu pai, tadinho, ficou no meio do caminho entre uma e outra, até decidir pela mulher, que chorava em bicas.
Dona Myrna sempre foi a tradução do termo dona. Quer ser dona da situação, saber da vida de todos, comandar os rumos familiares. É isso que sobra quando os filhos já estão criados: saber da vida alheia e, claro, dar pitaco. Mais ainda agora, que estão ela e seus botões morando a sós desde a morte do meu avô.
Mais do que ninguém, eu me dividi. Primeiro, veio a raiva da minha mãe. O aperto no peito quando abria a boca e a direcionava a minha avó não era gratuito. Ela, de fato, não sabia medir as palavras... falava num jeito ríspido, enquanto os outros falavam o mesmo, mas com um sentido irônico, leve. Eis que dona Susi resolve mostrar um pote de sobremesa sujo enquanto a vó servia o doce. É verdade, a vó anda muito desleixada com a limpeza... com o intuito de, porcamente, poupar água quente, detergente... e a merda voou no ventilador.
Por conta desse comentário ácido de Susana, acabei tomando as dores da vó. Fui apartá-la, ampará-la, mostrar solidariedade. E senti o ressentimento da mãe arder em minhas costas. Sei lá, ela é mãe do meu pai, está viúva, confusa, perdida. É compreensível que estoure. Embora saiba que ela se aproveita dessas situações para se vitimizar.
Triste, muito triste. Somos poucos, somos bravos, mas guardamos muito ressentimento no peito. E isso não faz bem. Por isso eu choro, xingo, esbravejo.
Família...
Ainda bem que essas coisas se resolvem com o tempo.
Assisti a uma briga em família. Minha mãe e minha avó, mãe do meu pai. Foi surreal. Todos à mesa se calaram. Ficou apenas o som do choro e dos gritos delas. Eu, pra variar, chorei copiosamente. Não queria acreditar que estava assistindo àquilo.
Mas todos sempre souberam que elas viviam às rusgas. Mas a antipatia sempre foi velada. Quando minha mãe dirigia a palavra a ela, sempre sentia um frio na barriga. A dona Myrna teimava em interpretar os ditos da mãe como ofensas à sua ilustre pessoa.
Nervos à flor da pele. E não há ser, por mais germânico, hitleriano, estóico, senhor de si, frio e calculista que seja, que um dia não estoure. E quando o estouro acontece depois de aaannoooosss de ressentimentos acumulados, a coisa tende a ser feia.
E foi. Não sei se elas voltarão a se falar.
O mais doido de tudo é que ninguém sabia a quem amparar. Meu pai, tadinho, ficou no meio do caminho entre uma e outra, até decidir pela mulher, que chorava em bicas.
Dona Myrna sempre foi a tradução do termo dona. Quer ser dona da situação, saber da vida de todos, comandar os rumos familiares. É isso que sobra quando os filhos já estão criados: saber da vida alheia e, claro, dar pitaco. Mais ainda agora, que estão ela e seus botões morando a sós desde a morte do meu avô.
Mais do que ninguém, eu me dividi. Primeiro, veio a raiva da minha mãe. O aperto no peito quando abria a boca e a direcionava a minha avó não era gratuito. Ela, de fato, não sabia medir as palavras... falava num jeito ríspido, enquanto os outros falavam o mesmo, mas com um sentido irônico, leve. Eis que dona Susi resolve mostrar um pote de sobremesa sujo enquanto a vó servia o doce. É verdade, a vó anda muito desleixada com a limpeza... com o intuito de, porcamente, poupar água quente, detergente... e a merda voou no ventilador.
Por conta desse comentário ácido de Susana, acabei tomando as dores da vó. Fui apartá-la, ampará-la, mostrar solidariedade. E senti o ressentimento da mãe arder em minhas costas. Sei lá, ela é mãe do meu pai, está viúva, confusa, perdida. É compreensível que estoure. Embora saiba que ela se aproveita dessas situações para se vitimizar.
Triste, muito triste. Somos poucos, somos bravos, mas guardamos muito ressentimento no peito. E isso não faz bem. Por isso eu choro, xingo, esbravejo.
Família...


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