Olhar tristonho
Tem uma menina no meu prédio que sofre calada. Há pelo menos dois meses, escuta as discussões dos pais, audíveis inclusive aos vizinhos. As brigas são embaraçosas. Tenho vergonha pelo casal, tenho vergonha pela menina que precisa engolir o choro todos os dias, pobre vítima do desequilíbrio de seus progenitores. Já nos encontramos na saída do prédio algumas vezes. Vejo nela uma criança adulta. Tem um olhar tristonho e uma postura de menina moça. Também pudera. Lhe roubaram a infância. Agora ela sofre com problemas dos adultos. Queria brincar de boneca sossegada, mas precisa tapar os ouvidos para evitar escutar palavras feias. Mas não adianta. E por isso ela sofre. Tem olheiras profundas de noites passadas em claro. Pobre menina. Quando nos vimos pela última vez, ela aguardava a kombi para levá-la à escola. Ajeitava a mochila de rodinhas e, no instante em que me viu, correu para o portão para me fazer a gentileza de abri-lo. Agradeci com um sorriso no rosto. Ela deu um simpático tchau, mas senti em sua voz uma vergonha pela situação dos pais.
Pobre menina. Rezo para que supere a instabilidade dos pais e se torne uma moça feliz, que não se deixe abater pela amargura da mãe, que xinga o pai pela ausência em casa. Muito embora eu enxergue nela uma melancolia que deve perpetuar.
Pobre menina. Não perca a fé no amor. Não se deixe entristecer pelas brigas dos pais. Seja forte. Encare a vida de frente e não perca a ternura nunca.
Pobre menina. Rezo para que supere a instabilidade dos pais e se torne uma moça feliz, que não se deixe abater pela amargura da mãe, que xinga o pai pela ausência em casa. Muito embora eu enxergue nela uma melancolia que deve perpetuar.
Pobre menina. Não perca a fé no amor. Não se deixe entristecer pelas brigas dos pais. Seja forte. Encare a vida de frente e não perca a ternura nunca.


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