Família (parte 1)
Houve um momento da adolescência no qual eu desejei que meus pais fossem separados. Um absurdo bárbaro mas, sim, eu desejei que isso acontecesse. A motivação pra esse pensamento ridículo não era algum ruído na relação deles. Era justamente o contrário. Eles pareciam funcionar muito bem juntos, em todos os aspectos (é, naquele também). Mas era tempo de separações. Colegas chegavam no colégio contando que, a partir daquele dia, teriam duas casas para visitar, dois destinos pra ir nas férias. E isso alimentava ainda mais meu desejo tosco de querer que se separassem.
Mas isso passou, junto com a fase mais abobalhada da minha vida. Hoje eu quero mais é que envelheçam juntos. Não consigo enxergar um sem o outro e me deprimo em pensar nos dois apartados. Depois do susto que meu pai nos deu, eu passei a projetar nossa vida sem ele. Céus, é inconcebível! Meu pai é o pai da família patriarcal. Ele é o provedor, ele é o cara que decide as coisas, dá a última palavra. Minha mãe, ela diz "sim, senhor". Eu nunca disse "sim senhor" na boa pra ele, e por isso passamos por momentos turbulentos. Brigas e ofensas que ficaram no baú de lembranças da minha adolescência. Antes de qualquer coisa, eu não concordo com a postura da minha mãe. Mas ela precisou ser assim para que eles não vivessem em constante pé de guerra. O fato é que agora minha mãe não tem mais paciência para dizer "sim, senhor". Ela encheu o saco. E também encheu o saco de dizer amém pra um monte de coisas que a incomodam. E eu tenho medo do que pode acontecer a partir disso. Minha mãe é minha essência sentimental à potência 10. Isso significa um poço de sensibilidade. O que eu venha a dizer pra ela meio sem pensar pode ficar martelando na cabeça dela por dias, num remoer quase doentio. Eu não conheço muito minha mãe. Assim como não conheço muito meu pai. Mas sei que ele não chora em velórios, enquanto minha mãe se acaba em lágrimas por dias e, ainda hoje, chora a lembrança dos que já foram. Mas meu pai chorou quando me reviu no aeroporto, depois de passarmos um mês beeem distantes. E meu pai quase chorou quando reviu fotos como essa, do veraneio de 1982 em Bombinhas, Santa Catarina. Éramos nós três começando nossa família. Minha mãe cuidando para que eu não comesse a areia da praia e, ao mesmo tempo, apoiando meus primeiros passos. E meu pai, em seus dias de fotógrafo, registrando a cena. A foto foi feita por um amigo nosso. Tá, agora quem chora sou eu!


0 Comments:
Postar um comentário
<< Home